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A menina que fazia ventos – Poesia e Reflexão

Redação

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Um dia meus pais receberam a visita de um velho, recém tinha ficado viúvo, embora tivesse filhos, foi rejeitado. Este senhor era irmão da minha avó. Sem ter para onde ir, pediu para morar na casinha de ferramentas do meu pai. Óbvio que meus pais disseram não, e o acolheram dentro da nossa casa. Eu era apenas uma criança, mas naquele dia compreendi que a ingratidão não vem do mundo, mas sim das pessoas, de filhos que abandonam seus pais na velhice.

O nome dele era João Maria, tinha os pulmões doentes, precisava de cuidados e quis o destino que ele fosse procurar ajuda no lugar certo. Eu o chamava de tio João, não podia fazer muito por ele, mas era uma menina curiosa, estava sempre observando aquele senhor que fechava os olhos, abria a boca e tentava buscar o ar. Quando me via, pedia que eu o abanasse com um leque. Ia regrando: “mais vento, mais forte,” ou menos. Eu tinha uma função, era a menina dos ventos. Rapidamente o tio João ia melhorando. O velho que tanto buscava o ar, se sentia feliz quando eu trazia, ou melhor fazia.

Depois de algum tempo ele faleceu, os ventos não assustaram a morte. Ele era tão magrinho, rosto fino e tinha um olhar cansado. Quando estava deitado parecia um amontoado de ossos sobre a cama. A passagem dele pela minha casa fez uma transformação em mim. Nunca abandonar. Que tipo de pessoa eu seria se negasse minha avó, meus pais, e algum deles fosse pedir para resumir a vida em uma casinha de ferramentas?

O tio João me ensinou a ser grata, era este o sentimento que seus olhos mostravam todas as vezes que ganhava algo que para ele era extremamente precioso, o vento. A menina que fazia ventos, hoje sopra ventos de gratidão. Só colhemos o que plantamos, ou melhor, ventamos.

Imagem: Depositphotos, banco de imagens

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