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Crônicas do Anoitecer – 09/06/2020: Às companheiras solitárias

Arthur

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Madrugadas têm um sabor agridoce. Diga-se de passagem que amo. Um momento que mistura dor e amor, sexo e solidão, ontem e amanhã não merece outra definição do que essa. Horas mais de açucar, outras mais amargo, e isso tudo contrastando com um picante ácido único. Na noite passada escrevia sobre como a vida é fugidia, hoje só sinto vontade de cantar uns amores pelos ares e elogiar essas horas que passo acordado. No fim, só um bom degustador de noite consegue perceber seu sabor especial. Ouvir a canção que traz consigo assim que toca nossas línguas e demais partes, invisíveis também.

É muito engraçado pensar como alguns momentos, às vezes banais e corriqueiros, podem deixar lembranças tão sensoriais depois que passam. O escuro, a estufa ligada, o notebook aceso, coisas que durante o dia acabo sentindo falta, e que somente esse docinho da madrugada me proporciona. Pensar que antes, nem fazia ideia que sentiria saudade disso, não tinha me arriscado a experimentar, e que agora que experimentei já estou literalmente viciado. Assim são as paixões na minha vida, ironicamente elas agem do mesmo jeito, de repente se me permito já tomam conta de tudo. E pronto, lambança feita. Mas também sou capaz de uma façanha pior, sentir falta do que nunca vivi.

Como um bom taurino me sujeito a essas coisas, vivo cada momento de um jeito único, buscando o romance e os mais sutís prazeres, mesmo que inconscientemente, e quando vejo já me envolvi demais e estou preso. Porém esse sabor agridoce das altas horas, sei que é realmente único, junto dele reflito sobre mim, e numa epifania de vazio e comodidade, me enxergo como sou, por isso consigo produzir. A calmaria é o tempero secreto, a cerejinha do bolo que torna tudo especial. No silêncio se escutam as vozes do dia, da infância, dos amores e do futuro de vez em quando.

Amo as madrugadas porque sei que elas me amam, é simples, existe reciprocidade. Esse é o segredo, um taurino meio carentão com as horas mais solitárias do dia, resultado: casal que dá certo. Trocamos confidências, e diferente de qualquer relação material, objetiva e carnal, é algo que transcende, ela me conta suas mágoas, tenho empatia, misturo com as minhas e escrevo, depois disso vamos descansar, ela se vai no sereno e eu durmo de consciência limpa, sempre com gostinho de quero mais na língua.

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