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Coluna Dia Um – 02/08/2020: Existências Imaginadas

Tanto exaltamos a beleza viva e pulsante de uma cidade com luzes – seus muitos prédios recortados contra o céu noturno, os faróis serpeando, feito pequenos holofotes, as salas de estar… – que, por ocasião do desábito, não ficamos por tempo suficiente num lugar apagado para aprender a apreciá-lo.

Claro, a chama da vida, o fogo das conversas, o movimento das consciências, tudo isto nos excita e aproxima. Um parque lotado numa tarde de sol; um jantar à luz de velas: há vibração e certo desejo em grande parte do que conseguimos enxergar, simplesmente porque é fácil estar inserido ali, seja como observador periférico, seja como centro das atenções.

Agora, complicado mesmo é sair às ruas desertas, ao mesmo parque lotado naquela tarde de sol, mas que, neste instante, jaz preenchido de vazios, e senti-lo igualmente desperto. Complicado é encarar o restaurante fechado com telhas, a madeira oca e fria nas janelas, as velas apagadas.

Não à toa, tons de cinza e ecos são estranhamente similares. Ficam em algum ponto entre o vivaz e o mórbido; perdem-se entre o momento da gargalhada e o último vislumbre de cor antes do fade final. Ambos nos deixam na dúvida se ainda replicam verdades: o eco do choro carrega sentimento? Ou, como um discurso vazio, é apenas repetido, sem contudo ser questionado? E quanto ao cinza, está mais perto do branco absoluto ou da ausência total de cor?

A cidade, quando adormecida, quando vazia, quando deixada, também deixa dúvidas. Ao contrário da alegria sugerida pelo dia de sol, pelo burburinho da conversa, sugere apenas reticências… O que aconteceu ali para que os olhos não captassem movimento? Já houve preguiça naquele banco de praça? Aquela pequena cerca retangular, tão convenientemente posicionada, tão perfeitamente calculada, já foi baliza para uma partida de bola?

Se o som e a cor e o movimento instigam por sua veracidade, por sua palpabilidade, então é possível dizer que a falta deles instiga pela dúvida. Se a beleza viva pulsa vermelho-viva, a ausência dela se move com sutileza, subindo e descendo em harmonia, de maneira quase imperceptível…

A perfeita respiração que os olhos não podem ver.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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