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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 02/11/2020: As muitas faces da morte

Ariel Fedrizzi

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Desde que a humanidade se conhece por tal, a curiosidade pelos fenômenos além da compreensão mundana – o sobrenatural – é intrínseca a todos.

O mistério e as reticências, por si só, causam interesse e assombro em igual medida. E tudo toma proporções ainda maiores quando o que está em jogo é a nossa fragilidade, o fim de nosso tempo aqui na terra e o vácuo que representa o que vem em seguida.

É natural que teorizemos, que estudemos, que tentemos responder. Ainda assim, a ínfima parte que nos parece palpável é feita quase que inteiramente de fé – o que nos permite moldá-la para preencher alguns espaços, é verdade, mas que deixa outras tantas lacunas para as quais toda a imaginação do mundo não parece segura.

O que é, afinal, a morte?

Para muitas culturas, ela representa um ponto final. Não necessariamente algo triste, mas, decididamente, definitivo.

Para outros olhares, ela é uma espécie de estação de trem. É ali que desembarcamos da viagem vida; e também é ali que fazemos algumas constatações acerca do que obtivemos no trajeto, a fim de decidir se o que vem a seguir é um novo trem, ou se ainda não estamos preparados para recolocar o pé na estrada.

A morte pode vir de preto, de branco ou de colorido. Pode ser recebida num silêncio sepulcral, regada às lágrimas dos que perderam algo. Ou pode ganhar o ar através de uma melodia dançante, como se fosse o festejo de despedida de um velho amigo, prestes a partir.

Não há uma face certa da morte só porque não enxergamos as demais. Não há privilégio no enterro e no luto em detrimento da comilança e da celebração. Se os faraós julgavam sensato guardar o corpo para, quem sabe um dia, voltarem à vida no reino dos céus, talvez um coração doado e a esperança de um renascimento estejam mais próximos da redenção.

Não sabemos como é a travessia, se é que, de fato, ela existe. Não sabemos se os mares e as gôndolas de Caronte são os guardiães da passagem. Pode ser que sim.

Pode ser que não.

A morte mais se aproxima de um flerte que não se concretiza: uma troca de olhares que nos deixa matutando sobre o que poderia ter sido. Ao mesmo tempo em que desaparece na névoa, sem aviso, ela continua ali.

Ela continua ali… e nós continuamos na dança, sabendo, mas ignorando, que ela nos mira de longe…

Às vezes, perto demais.

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