Jornal do Povo

Coluna Dia Um: 03/05/2020 – Ode aos anti-heróis – por Ariel Fedrizzi

Dia desses, estava ponderando sobre o heroísmo. Aquele de cinema, mesmo. Do homem alto, forte, confiante e musculoso, com fala assertiva e o mantra de salvar o mundo no final. Tão belo!

Desde criança, é fácil se encantar com os mocinhos. É reconfortante ser conduzido pelas linhas de uma história de valentia, uma que nos mostre a vida sem nuances, sem os tons de cinza que mancham o preto e o branco de um código moral.

Não é de culpar que cresçamos com referências perfeitas, almejando trajetórias em linha reta, ascendente, e desprezando arcos de incerteza e altos e baixos. Não é de culpar que olhemos com olhos impressionados e cheios de admiração para o que já está no palco, para quem já ganhou a luta ou, mais cedo ou mais tarde, ganhará. São os tais dos finais felizes – importantes para nos ajudar durante os dias difíceis.

Só que, longe dos holofotes e ainda mais distante da apreciação, há um outro tipo de heroísmo. Um que é cru demais e feio demais para ser trazido à tona, pois cutuca sem pudores uma série de feridas que preferimos ignorar.

Trata-se dos anti-heróis.

Homens sem capa e, às vezes, com roupas puídas. Homens medianos com muita coisa em mente e nada a perder. Homens que já perderam tudo, também, e agora buscam uma forma de recuperar o mínimo: a essência. Homens desrespeitados, desesperados. Homens patéticos.

Muitos filmes (e livros e séries e jogos…) que contam histórias sem lutas épicas ou grandes vilões acabam deixados de lado quando se busca a referência de um vencedor. Personagens frustrados, assolados pelo medo, visitados pela dúvida, preenchidos pelo vazio, não costumam ocupar lugares bonitos. Isto porque escancaram sentimentos como a perda e a impotência, não mascaram a imperfeição.

No entanto, são agressivamente reais, dolorosamente bravos por conseguir, em algum ponto, de alguma maneira, redescobrir algo perdido – não necessariamente grande nem belo, nem terminado, apenas um resgate próprio.

Feito filmes de segunda, personagens assim não são as opções mais relevantes quando se fala em vitória, até porque estão acostumados a perder na frente dos outros. Suas palavras e atos não são música para os ouvidos, e sua aparência não costuma ser colírio para olhos que não admitem defeitos. Mas é justamente a bagunça que representam que os torna tão encantadores.

O tempo dos heróis imaculados passou. A vez agora é, justamente, dos que não gostam dos holofotes, dos que sempre existiram ali, à sombra dos outros – família, amigos, inimigos, sociedade –, sempre muito voláteis para agradar o gosto do público.

É tempo de escancarar a beleza do estranho, reverenciar os coxos e os desencontrados, brindar a algumas figuras interessantes da escória.

Que tal Rick Dalton, Tyler Durden, Walter White, Aberforth Dumbledore? Lester Burnham e Gregory House? Michael De Santa, por que não? E por que não guardar um gole para Homer Simpson? Uma dose para Bojack Horseman? Com a bênção de Charles Bukowski, a equipe dos anti-heróis está bem liderada.

Se você não os conhece de nome, não se preocupe, é normal. Como baratas, estas figuras estão acostumadas ao anonimato e a diferentes formas de escuridão.

E como as baratas, também, têm existido desde o princípio e sobrevivido a repetidas possibilidades de final.

ARIEL FEDRIZZI: com 23 anos de idade e natural de Caxias do Sul (RS), é fascinado desde sempre por contar histórias. Ele tem nas palavras a chave para dar voz ao que não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, da Faculdade da Serra Gaúcha – FSG – e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários.

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