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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 04/10/2020: A casa da bisa

Ariel Fedrizzi

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É dito que casa de vó é tipo mina de ouro. Mas no meu caso, com a vó morando debaixo do mesmo teto, o papel de oásis da infância por muito tempo foi da casa da bisa.

Era só subir as escadas e atravessar o pátio de trás, e pronto: abria-se um horizonte de infinitas possibilidades!

Do café forrado de açúcar nas delicadas xícaras de porcelana (pintadas pela própria bisa com adornos florais) aos incontáveis sacos de bombom, a própria casa tinha um aroma gostoso. Enquanto a bisa se concentrava nas suas palavras-cruzadas, a TV também era minha – eu me apressava em tirar das notícias e mergulhar o ambiente numa dose de Scooby-Doo.

À toda volta, dentro e fora, muitos gatos, bem como devia ser. A bisa falava com eles quando desfilavam por entre seus pés, e, assim como fazia comigo, não perdia uma única oportunidade de alimentá-los um pouco mais.

Na casa da bisa, a regra era aproveitar. Mesmo tarefas chatas que recendiam a obrigação, como os temas, ganhavam contornos divertidos nas longas tardes em que nos sentávamos lado a lado para estudar. Eu, a matéria da escola; ela, as agulhas de crochê.

Se todos os clichês escondem fundos de verdade, eu não sei, e também não me interessa. Mas que a casa das segundas-mães (no meu caso, da terceira) são de fato um respiro para a mente cintilante contra o mundo real, não há dúvida. Repousando no topo do pátio como se simbolizasse a sabedoria da anciã, a casa olhava por todos os filhos, netos, primos e tios – pelos bisnetos também.

Pouco me lembro da época em que a família decidiu reunir a prole para uma janta no santuário da matriarca. Só o que lembro é de ver todo mundo que eu amava reunido num mesmo lugar. Com comida. Aquilo me bastava.

O poder de aproximar mesmo quem gravitava longe dali era um dos dotes da bisa. Mesmo os familiares “turistas”, aqueles que haviam saído de casa ambicionando ganhar o mundo, voavam de volta para o ninho no alto das árvores para recarregar as energias com carinho materno multiplicado por mil.

Até no falecimento a bisa conseguiu unir os que ficaram. Todos se agruparam uma última vez em torno dela – e dessa vez, não foi preciso falar. Depois que ela partiu, as reuniões de família não foram mais as mesmas.

Pensando bem, nem poderiam, não é? A debandada dos filhotes quando aprendem a voar faz parte do processo. E como filhote, só me resta agradecer por ter tido uma bisa-coruja para acompanhar o crescimento.

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