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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 05/07/2020: Utopia para o fim

Ariel Fedrizzi

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Jornal do Povo - RS - apartamentos 45

Em tempos de pandemia, com análises e mais análises se espalhando pela rede feito o próprio vírus – e abordando impactos econômicos, debates sociais, formas de conduzir uma nação e garantir a sua integridade… –, há um ponto em específico que não tem recebido, a meu ver, a devida atenção.

Trata-se do machucado que a doença causou em nosso orgulho, e dos porquês de ser tão difícil abrir mão de uma rotina minimamente normal durante o isolamento.

Veja bem, o ser humano dispensa apresentações. A nível histórico, temos enfrentado toda a sorte de adversidades impostas a nós. Dominamos o fogo; ganhamos a escrita; chegamos até mesmo ao ponto de sonhar com as estrelas. Da astronomia à culinária, da arquitetura à guerra, galgamos incontáveis degraus em nossa escalada pela sobrevivência milenar.

Se não éramos, desde o princípio, os favoritos, nós nos tornamos. Se não tínhamos a benção de um deus estendida sobre nós, criamos nosso próprio Criador – e o temos honrado com templos, com rezas, com ídolos esculpidos, no mármore, à perfeição.

É fato que, numa escala histórica, já chegamos perto de encontrar o nosso fim há dois dedos de agora. Quer um exemplo? A Peste Negra, outra doença que assolou o planeta e foi responsável por uma ferida que demorou a sarar. Estar a um passo da morte não é novidade para os reis do mundo… mas, ironicamente, é por este mesmo motivo que nos recusamos a erguer as mãos em rendição diante do Coronavírus.

Deve ser incômodo ao orgulho se deixar parar por algo invisível aos olhos. A já citada Peste, por exemplo, ceifava vidas a uma taxa assustadoramente maior. A Segunda Guerra fazia os céus queimarem com a força de mil sóis. Até mesmo o fim do mundo (d)escrito na Bíblia remete a um caos mais fantástico e pitoresco.

Eu entendo o ser humano.

Deixar-se barrar por um problema que não aparece nas ruas, por uma doença cujos sintomas não tendem a fugir daqueles de um resfriado – uma “gripezinha” – soa não menos do que humilhante. Digo, quem é este vírus na cadeia alimentar, na fila do pão?

Só que, agindo com a prepotência a que nos acostumamos, nós nos esquecemos de um detalhe: esta mesma força que fez com que algo impossível de ver gerasse uma comoção mundial é a força que criou o Tsunami. Esta mesma força que hoje nos impede de retomar a rotina como se nada estivesse acontecendo é a força que gerou desequilíbrios. Que sacudiu cidades, que provocou a erupção de demônios adormecidos debaixo da terra.

Ela se manifesta sob diferentes nomes, nossas crenças e saberes a seu respeito são praticamente nossos ancestrais. Mas seu poder de nos lembrar de nossa fragilidade tem seguido igual desde antes de nós próprios a descobrirmos.

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