Connect with us

Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 06/12/2020: Alguns artifícios lusófonos

Ariel Fedrizzi

Publicado

on

O português é mesmo uma coisa incrível, não é?

Como pode a mesma língua afiada com as ironias do grande Machado de Assis, que cortava de forma quase elegante, também nos presentear com os doces poemas de Cecília, suas palavras ao vento que nos fazem dançar?

O português é mesmo incrível.

Como pode um exagero ser considerado arte e ainda receber um nome que o defina? As hipérboles que o digam – e digo mais: falam pelos cotovelos!

Há também a comparação suavizada, a metáfora, o ardil. É como falar que “o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”. O que se sente, no fim das contas, são as palavras de Camões…

Português é beleza estética, ou você vai me dizer que não se deixa tocar pela estrutura de um verso formoso? Mas português é confusão, também; confusão de sentidos, equívoco de entendimentos, bagunça de significados. É tipo o sabor do azul, o som do visível, o palato do indecifrável. Sinestesia e caos.

Bonitas também são as diversas possibilidades de se fazer entender, os diferentes meios através dos quais é possível atingir um mesmo final. Afinal, “Transação não autorizada” e “Meu Deus do céu, estou ferrado!” costumam ser mais parecidos do que podem parecer.

Por outro lado, para o esperto, esta mesma liberdade na hora de suavizar a comunicação pode representar uma arma poderosa. Quando a taxa a ser acertada é um tantinho maior do que o inicialmente calculado, ou quando o sistema está “fora do ar, mas, em breve, será reparado”, seria o eufemismo a opção mais sensata a se utilizar?

O português é incrível por ser inacreditável. E falo sério! Nas vezes em que o gênio não é genioso, ou que o par acaba não sendo o oposto de ímpar, mas, sim, o seu acompanhante numa festa de casais, quem olha de fora fica confuso.

A língua nos dá um verdadeiro baile, e não falo de dança. Bem, na realidade, até pode ser: um baile feito o dia em que a Alemanha colocou o Brasil para dançar no 7 a 1. Uma lavada! – muito embora bastante coisa permaneça suja por aqui…

Sujo, também, é o mesmo que mal lavado, como a boca de quem fala palavrão – vários destes que são, na verdade, palavrinhas (e eu sei em qual delas você acabou de pensar).

Dos barracos armados por conta do desconforto de dormir em barracas às maratonas que não envolvem correr, o português é dramático e divertido em igual medida. Suas imperfeições e dualidades nos cativam de maneira tão natural, que é impossível não se ver encantado com o jeito como tudo se encaixa.

Daqui a milhões e milhões de anos, quando acharem os resquícios de nossa civilização, espero que achem a antítese, o pleonasmo, que traduzam as nossas onomatopeias. Quando localizarem o que restou de nós, espero que já tenham aprendido a lidar com os nossos paradoxos melhor do que nós próprios lidamos.

Até lá, seguiremos brincando com a língua… e com todas as interpretações que esta frase permite.

Continue Reading
Comente

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Tendência

Copyright © 2021 Jornal do Povo RS