Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 08/03/2021: Ouvi dizer…

Sempre ouvi dizer que jogar futebol (ou basquete ou qualquer outro esporte, salvo, talvez, um pouquinho de vôlei) era coisa de menino. Que, como uma boa menina, eu deveria aproveitar a Educação Física para colocar as fofocas em dia com as outras meninas.

Sempre ouvi dizer que a minha mochila não podia ser azul. Nem as minhas roupas, nem as minhas cobertas. Os únicos bonecos que eu poderia ter eram os maridos das minhas bonecas – aqueles altos e fortões, verdadeiros príncipes encantados para as princesas indefesas. Carrinhos? Nem pensar! Videogame? Segundo o que falavam, era muito difícil para mim…

Sempre ouvi dizer que eu tinha passe livre para o choro. Ao contrário do meu irmão, que, muitas vezes, segurava a dor de um joelho ralado ou do coração para evitar constrangimento, as lágrimas me eram permitidas. Por outro lado, eu não podia me aventurar nas brincadeiras de polícia e ladrão; não podia encenar um conto de magos ou heróis sendo uma feiticeira ou heroína. Era apenas a fadinha, e, mesmo assim, com algumas limitações…

Sempre ouvi dizer que havia a forma correta de uma menina sentar, o jeito correto de uma moça falar, o modo correto de uma mulher se portar. Eu deveria manter as pernas cruzadas e as mãos no colo; dirigir a palavra apenas quando fosse convocada; evitar certas peças de roupa para não “provocar”.

Também ouvi que não deveria beber demais (e nem de menos); sair sozinha (ou acompanhada); rir alto e, de vez em quando, falar palavrão. Meu salto e minha maquiagem deveriam me acompanhar aonde quer que eu fosse… e, além de dona de casa, esposa e mãe de três, eu deveria ser uma supermodelo e supercozinheira para a minha família de comercial de margarina.

Outra coisa que ouvi dizer é que eu não deveria trabalhar, porque essa não era a minha responsabilidade. Mas depois ouvi que eu deveria saber conciliar a vida profissional com os afazeres domésticos; bancar meus próprios luxos para não ser aquele tipo de mulher que se aproveita do marido.

Ouvi que amamentar em público era desrespeitoso, e também que eu deveria ter sabido a hora de tirar a chupeta da criança ou contar a verdade sobre o Papai Noel.

Ouvi que eu não podia me manter num casamento que não estivesse bom. Mas, também, ouvi que pedir divórcio alegando infelicidade era criar intrigas desnecessárias para a família.

Ouvi que não devia, de maneira alguma, tentar aparecer: nem mostrando as pernas com algum vestido curto; nem “inventando moda” com o desejo de ser empreendedora; e nem citando a altos brados que não planejo ser mãe.

Durante a minha trajetória enquanto mulher, ouvi dizer tanta coisa… Só não me falaram que, quem tanto diz, normalmente não faz questão alguma de saber das marcas que carrego comigo.

Marcas de sangue. Marcas de maternidade. Marcas de luta.

Marcas de mulher.

Ao invés de domingo, a Coluna Dia Um desta semana veio ao ar na segunda-feira em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



Publicidade

Escreva um comentário

Siga-nos

Estamos também nas Redes Sociais. Segue a gente lá!!