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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 08/11/2020: Sobre aquilo que volta (e as coisas que nunca deixam de estar)

Ariel Fedrizzi

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Noite passada, no pós-jantar com dois casais de amigos íntimos – diga-se de passagem, todos tomando os devidos cuidados com a pandemia –, fomos à sala de estar para jogar conversa fora. Acomodados nas cadeiras e no sofá, um pouco letárgicos por conta da digestão, mal sabíamos nós que estávamos prestes a desenterrar um tesouro.

Tudo começou com um apontar de dedos e alguma vaga pergunta: “O que é aquilo?” “Ah, são… são apenas alguns velhos vinis da família.”

E pronto: em questão de segundos, estávamos reunidos em volta do velho aparelho de som, todos repentinamente despertos, os olhares curiosos pelo que aconteceria a seguir.

De início, a porta do armário que guardava os discos insinuou não ceder; era como se nos desafiasse a voltar no tempo com a delicadeza e a destreza necessárias. Com uma puxadinha aqui e ali, no entanto, se abriu, deixando entrever partes esquecidas do passado.

Beethoven. Dirty Dancing. Michael Jackson. Pink Floyd. A lista seguia. Não eram muitos os vinis que caíram para o nosso colo, que passaram de mão em mão – todas elas previamente higienizadas, importante frisar. Algumas capas estavam puídas; em certos pontos, o plástico que protegia os discos fora rasgado.

Mas aquilo não importava.

Talvez um pouco atônitos pela ideia, talvez incertos de que fosse funcionar, nós nos entreolhamos. “E agora?” “E agora tentamos, não é?” “Mas qual?”

Começamos com Beatles. Mas logo passamos para algumas coletâneas, e para Bon Jovi, e para Vivaldi. O velho rádio, com seu módulo toca-discos no topo, como deve ser, fez a casa inundar de som.

A agulha do tocador encontrava riscos nas reentrâncias a todo instante. Michael Jackson, por exemplo, se fazia ouvir de forma quase remixada. Enquanto a sala de estar seguia submersa na história, embarcada na canção, eu me peguei admirando as listas de músicas em cada LP: o lado A, o lado B, as datas… Bastante coisa desconhecida. Bastante coisa esquecida no tempo.

Depois que meus companheiros de devaneios musicais foram para suas casas, não tive coragem de desligar o toca-discos. Pelo contrário: me permiti uns minutos a mais de introspecção guiada, de resgate e rememoração. Aceitei de bom grado a tarefa de levantar do sofá a cada trinta segundos para ajustar a agulha quando um vinil pulava – uma valiosa lição de humildade, devo dizer.

Apesar de não saber quais discos venceram o passar do tempo e permanecem em melhor estado, sei que pretendo voltar ao velho toca-discos modular mais vezes. Há tudo de nostálgico no som de uma canção tocada ali. E como, hoje em dia, a busca pelo que ficou para trás tornou a dar as caras, sinto-me privilegiado por ter, em meu próprio lar, um túnel do tempo.

Vou viajar.

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