Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 10/01/2021: As incríveis aventuras do homem moderno

Acorda,
Levanta,
Se arruma e desarruma a cama,
Dorme cedo,
Sai correndo,
Volta exausto.

Enxuga o suor
Para dentro do café,
Com pouca fé continua indo orar.
Vai e volta,
Gasta e sobra,
Desatento, atravessa a rua,
Porque a mensagem é mais importante
Que o constante risco de ser atropelado.

Ouve e concorda,
Ainda que discorde.
“Apenas andem e acenem, rapazes”,
Ou vão notar do que somos capazes.
Bate ponto na entrada,
Bate bola na quarta,
Bebida alcoólica, só depois das seis,
Até lá, só stress e colesterol,
Cortisol, o hormônio das situações de perigo,
Como chegar em casa e pegar o amigo
Na cama com a esposa
– e não a dele.

Sai e corre,
Escreve e devolve,
Apaga e retorna,
Envia, consulta.
Recebe e já gasta,
Boleto, conta paga,
Presente desde o início do ano
Até o Natal;
Gastos de Tiradentes
Até o próximo carnaval.

Aumento de salário
Para pagar o dobro de medicamento.
Além da diabetes, hipertensão e depressão por causa da pressão,
Ainda tem a pílula azul
– e não é aquela de Matrix,
É uma outra para proporcionar momentos de diversão a dois,
Momentos que deveriam ser espontâneos
Mas não são,
Nestes tempos contemporâneos.

O carro do ano tá na garagem,
Mas não há dinheiro para bancar viagens nem a bagagem.
O cartão tem transação
Sempre aprovada,
Mas o filho reprova na escola e,
Silencioso,
Sofre bullying da garotada.

Amanda, Roberta, Vitória,
Os nomes da secretária se confundem com o da namorada,
Das clientes do escritório,
Das colegas de trabalho.

Apresentação de slides no PowerPoint,
E-mails, shopping, briefing,
Roupa de grife,
Termos importados;
É tudo um redemoinho de cor e confusão,
Profusão de olhares e sons e vozes
E ligações de telemarketing.

“Responda rápido, senhor,
Os acionistas querem um posicionamento
Antes do meio-dia.”
“Papai, papai, hoje vai lançar aquele filme sobre futebol
Que o senhor prometeu assistir comigo,
Vamos domingo?”
“Desculpe, filhão, mas o papai vai passar o dia todo
Em reunião.”

Despertador,
Televisão,
Exame no oftalmo,
Falta de atenção.
Terno e gravata,
Bênção e desgraça,
Ida ao zoológico que, na verdade,
Não é de perto tão selvagem
Quanto a selva de pedra onde se vive
Em todas as partes.

Compra de bilhetes para o jogo,
Para a Copa,
Para o show.
Olimpíada, almoço em família,
Ida ao estande no parque de eventos,
Espetáculo de aviões de fumaça,
Corrida dos carros da NASCAR.
Puxa-saquismo de bens
E atrações estrangeiros,
Casamento entre tapas e beijos,
Falta de consciência
Sobre a falta de leitos.

Este é o chamado pai de família
Na sociedade atual.
Ele corre e faz a roda girar porque é “o seu dever”
Enquanto homem de bem.
E para a saúde, para a arte e para a família,
Não há tempo:
O homem moderno está ocupado
Até mesmo no aniversário.

“Já nasceu o bebê?!”
“Minha filha, como você cresceu!”
“Maria, faz quinze anos que estamos casados!”
“Pai, mãe, por que os senhores me deixaram
Tão cedo,
Neste mundo
Tão desolado?”
“Elena traiu o Ricardo por causa de um garoto mais novo,
Dizia que ele não lhe dava atenção,
Mas come on!,
Ele bancava todas as roupas e joias e viagens muito caras.
Ainda bem que você não vai me trair, não é mesmo, Maria?”

Ah, se ele soubesse!
Mas ah, se ela soubesse
Que nas viagens a negócios
Ele trata de negócios
Mais escusos que as compras e vendas
De máquinas.
Se bem que, parando para ver,
Não deixa de ser
Uma compra e venda,
Uma transação que envolve transa e ação,
E, de certa forma, infelizmente é quase considerada
Uma coisa de máquina.

Ah, se o homem moderno soubesse
Que, de homem, não tem nada…
Assim como a mulher!
São seres humanos que deixaram
De ser humanos,
Engolidos pelo andar das peças de xadrez,
Presos no movimento dos ponteiros do relógio,
Tão imunes a mostras de amor,
Mas tão suscetíveis aos pecados da tez.

São blindados à empatia de olhar ao redor
Quando não se trata de ver preços e condições de pagamento.
Mas na hora que precisam bancar um tratamento
(para si, para o companheiro e para os filhos),
Aí, meu amigo…
Não vale o dinheiro investido.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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