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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 10/05/2020: Mais uma daquelas coisas de mãe – por Ariel Fedrizzi

Redação

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Minha mãe tem dois filhos, separados por uma diferença de expressivos doze anos. Eu e meu irmão. Meu irmão e eu.

Talvez por já ter criado e maturado o costume de simplesmente chamar “filho” naqueles anos em que eu era o único a responder, ela mantém o hábito até hoje. Não é “Ariel” ou “Santiago” – salvo nas vezes em está zangada, ela raramente utiliza nomes. É apenas “filho”.

Seja em casa, nos momentos em que ambos estamos nas redondezas; seja na rua; na hora das refeições; ao lembrar de um rápido recado… Minha mãe fala com o coração quando nos chama. E o que mais me surpreende é que sempre consigo saber quando ela busca a mim ou quando busca a meu irmão.

Não sei dizer se há alguma diferença no tom de voz, no ímpeto da fala. Independente de urgências e circunstâncias, de amenidades e gravidades, existe algo no vocativo de minha mãe que diferencia a convocação do caçula e a do primogênito. Existe algo! – mas como disse, não sei o quê.

É possível que parte do crédito seja nossa, dos filhos, por captar alguma sutileza inexplicável na articulação da mãe. Pode ser. Pode ser também que o talento de reconhecer chamados não seja um talento, mas treinamento, trabalho duro.

Penso a respeito disso quando observo meu irmão, afoito na infância, ansioso por mostrar serviço, respondendo a todos os chamados. Mesmo aqueles que são para mim. Mais rápido que este que vos escreve, ele não me dá oportunidade de me manifestar antes, mas sempre o censuro em minha mente quando sei que o recado é para mim. E no segundo seguinte, minha mãe externa o que eu antecipo: “É com o mano.”

Se aquelas coisas de família, como a conexão telepática, a leitura das vontades do outro e um senso para detectar manias e humores, já são um mistério natural, tudo toma proporções ainda mais fascinantes ao envolver a relação maternal.

Diz-se que mãe tem um sexto sentido, uma capacidade de detectar vibrações invisíveis aos olhos comuns. Eu concordo, e digo que a forma como a minha chama a mim e meu irmão é uma prova da habilidade materna de acariciar o que não é visto.

Neste caso, a voz. A forma de chamar o filho sem o nome e, mesmo assim, se fazer atendida.

ARIEL FEDRIZZI: com 23 anos de idade e natural de Caxias do Sul (RS), é fascinado desde sempre por contar histórias. Ele tem nas palavras a chave para dar voz ao que não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, da Faculdade da Serra Gaúcha – FSG – e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários.

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