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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 11/10/2020: As pequenas coisas que guardamos

Ariel Fedrizzi

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Dentro do cantinho mais especial da memória, daquela caixinha que é destinada às lembranças do coração, existe um baú.

Não é como as grandes arcas piratas, repletas de entalhes e de uma robustez quase intransponível no lugar onde se coloca a chave. Não. Este baú é diferente – é simples e delicado, e, para um olhar distraído, pode parecer, na falta de palavras efêmeras o suficiente, um objeto frágil.

Ele repousa em um pequeno espaço discreto; jaz silencioso, longe dos holofotes, tão singelo em sua essência quanto seu conteúdo é expressivo em valor.

Não é preciso exatamente uma chave para destrancá-lo, embora exista um jeitinho correto de fazer. Cada pessoa tem o seu, moldado à própria existência, impossível de ser furtado – daí o porquê de não ser necessário escondê-lo a sete palmos.

Ali dentro, neste baú, estão guardados os momentos-tesouro de cada um. Lembranças simples, em sua maioria. Muitas delas praticamente comuns: um dia de chuva na primavera, um beijo desajeitado no escuro, a canção que tocava quando uma boa notícia chegou.

Apesar do nome que os batiza, os momentos-tesouro não são normalmente aqueles a que atribuímos maior valor quando listamos conquistas. De fato, só reconhecemos vários deles muito tempo depois de os termos vivenciado. A caixinha que os recebe e acolhe o faz em silêncio, sem alarde; e é preciso muita sabedoria para tentar antecipar os movimentos do baú.

Sorrisos e vozes, churrascos de domingo com os amigos, um mundo com faces expostas (sem medo ou vergonha de mostrar) são bons palpites para o bom entendedor. Mesmo assim, sempre há boas surpresas: a única janela iluminada num prédio, dois balanços de parquinho ou um telefonema também são candidatos a reivindicar um espacinho ali.

É impossível prever como o baú se comportará em seguida pois ele responde àquela parte que não conseguimos controlar. Não obedece a condições pré-estabelecidas, nem a critérios quadrados; permite que seu conteúdo inteiro caiba numa fração sem que haja qualquer perda.

Quando dizem que o segredo é viver cada momento como se fosse o último, talvez estejam razoavelmente certos. E mais: talvez o baú, quando torna a trazer à tona alguma ínfima parte de todas as coisas que o compõem, esteja nos ensinando a valorizar o que, à primeira vista, parece comum – e a saborear os meios e inícios, em vez de tanto questionar os finais.

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