Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 13/09/2020: Amor de gato

Que nosso amor seja como o dos gatos.

Que possamos amar e ser amados porque é o que sentimos ser o certo a se fazer. Que o nosso ficar não seja um gesto submisso, mas um ato de compartilhamento. Compartilhamento de sorrisos e momentos. Multiplicação de carinho quando decidimos dividir nosso tempo por dois.

Que nosso amor seja como o dos gatos pelo pertencimento por liberdade. Não por obrigação. Não somos um do outro, pertencemos ao relacionamento. Construímos um vínculo de confiança, de reverência e de respeito, e bem como nossos amigos felinos, majestosos, sabemos que durará enquanto ambas as partes fizerem – e quiserem – com que dure.

Nós estamos ligados unicamente pela vontade de estar um com o outro. Sabemos que podemos ir embora se não sentirmos mais que nosso coração vive aqui. Podemos trocar a história e começar a escrever novas páginas em branco; como os gatos, somos independentes o suficiente para tal.

Agora… não quero que achem que não nos amamos por demonstrar o amor de formas tão sutis e autossuficientes assim. Embora, também, o que sabem os outros sobre nós? O que pode a opinião infundada trazer de novo ao sentimento completo? Eu mesmo respondo: nada. Então não, não importa o que possam achar; se não sabem a forma como amamos, ou se são grosseiros demais para perceber os sutis detalhes de nosso amor, é porque eles próprios não cultivam um sentimento ronronante dentro do peito.

Não amam como gatos.

Mas está tudo bem, também: existem outras formas de amar, e eles podem viver um grande amor daquela que acharem certa. Nós, ocasionalmente incompreendidos, os compreendemos. E não os julgamos.

Somos o doce luar de mistério que a noite traz. Aquela icônica imagem do gato olhando para o céu, indecifrável na janela, simplesmente enigmático. Afinal, não é porque estamos juntos que devemos deixar de lado as nossas próprias bagunças internas. Sabemos disso; somos bons na arte da percepção, do escutar o que não foi dito, do ler o que está escrito nas entrelinhas.

Captar sinais alheios nunca foi o problema. O que todos julgam impossível para nós é emitir os nossos de forma minimamente compreensível ao mundo. Mas, de novo, talvez não precisemos ser compreensíveis ao mundo. Os melhores livros são aqueles lidos por quem entende o que querem dizer.

É por isso, para começo de conversa, que nós nos achamos. Num mundo de conquista fácil e amores caninos, tão bonitos a correr na praia enquanto ainda há sol, mas por vezes tão tristes quando ele se põe na forma de tapas, gritos e uma espécie de abandono presente, nós nos achamos. Ganhamos a difícil confiança um do outro e, aos poucos, aprendemos a ler e manusear as linhas que cada um carrega das seis vidas passadas.

Estamos na sétima, mas não temos medo de morrer; nós caímos de pé. E embora possam dizer que não sabemos amar, eu e você, no fundo, entendemos que não se trata disso. Se trata de formas de carinho muito complexas para quem não viveu outras vidas.

Por isso nós relevamos, e enquanto relevamos, relembramos a nós mesmos que talvez eles é que não tenham descoberto o inteiro potencial de um amor.

E não precisa ser mestre para saber.

Quando um gato, numa noite chuvosa, sobe na cama e se aproxima de nós, o faz por escolha. Quando deita em nosso colo e começa a ronronar enquanto seguramos a xícara da café e, a custo, tentamos não rir, o faz por escolha. E quando um gato se deixa conquistar por nossas comidas e carinhos fáceis (estes que, nós sabemos, ele poderia conseguir em qualquer outro lugar do mundo, com qualquer outra pessoa), então……bem, fica mais evidente do que nunca: ele o faz por escolha.

Amemos por querer, assim como eles.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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