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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 16/08/2020: Receita para viver bem (em tempos de pandemia)

Ariel Fedrizzi

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Jornal do Povo - RS cozinha

Que 2020 chegou com o pé na porta, quebrando expectativas e causando uma indisposição – com o perdão do trocadilho – em planos e metas, não é novidade.

Também não é novidade, porém, que todo prato que se preze começa com uma miscelânea de ingredientes, uma bagunça visual que faz qualquer observador casual jurar ser impossível de colocar ordem na casa. Então, por que não pegar o avental de cozinha e libertar o Masterchef que vive dentro de nós?

Exceto que, em vez de beterrabas, aspargos e queijo, estaremos organizando o nosso dia a dia. Muito bem, vamos lá!

Para começar, precisaremos apanhar uma travessa e despejar aquela “papa” que ainda mantemos escondida no fundo da geladeira: a mistureba dos problemas familiares de sempre com o estresse acumulado por causa da quarentena; a gororoba de contas que não param de chegar com a saudade dos amigos. Devemos despejá-la na travessa e deixá-la bem à vista – de nada vale ignorar e fingir que o problema não existe. Voltaremos a ela mais adiante…

Agora, faremos um creme de chocolate. Ele será a base de nosso prato nestes dias complicados. Caso não goste, pode utilizar morango, ou leite, ou qualquer outro ingrediente – o recomendável é que sirva para adocicar o amargo da pandemia.

Acrescentaremos ao ingrediente-base uma pitada de videochamadas com as pessoas de quem gostamos, bem como refeições com os membros de nosso núcleo familiar, e alguns bons filmes ou jogos de tabuleiro. Esportes também podem ser adicionados, principalmente se causarem aquela sensação de dever cumprido. Importante frisar que as festas e aglomerações, por mais apetitosas que possam parecer, ainda não devem entrar na receita.

Uma vez preparado o creme, recomenda-se aquecê-lo com palavras de carinho – uma boa leitura para passar o tempo, ou mesmo o início de um projeto literário para autossatisfação, são boas opções. Para quem vive com o parceiro, esta é uma boa hora para temperar um pouquinho as coisas: pimenta com café na cama são alternativas interessantes. Mas, para aqueles que não moram com a sua cara-metade, não tem erro: a companhia de um gato ou de um cachorro e alguns dias de sol devem servir.

Nosso prato está começando a tomar forma. O passo seguinte costuma ser um tantinho mais delicado, mas torna tudo mais leve quando bem executado…

Nós pesaremos algumas coisas que guardamos nos armários; analisaremos seus prazos de validade, veremos se ainda vale a pena estocá-las para cenários que talvez não aconteçam. Não hesite em se desfazer daquele leite que azedou, ou de algumas mágoas que já pesaram o suficiente. Assim como as alegrias que se renovam, deixe que as preocupações antigas descansem no passado.

Concluído este passo, você notará que o creme ganhou consistência. É uma espécie de processo de fermentação – chama-se maturação. Maturidade. Amadurecimento.

Agora, lembra da gororoba que deixamos de lado no início da receita? Bem, ela é necessária para concluir este processo e dar profundidade à sobremesa. Se tudo der certo, seu sabor forte contrastará gostosamente com o doce do creme, dando um toque de humanidade e imperfeição ao prato preparado. Caso deixe apenas a parte doce, talvez sinta uma ausência de propósito no paladar – algo ligeiramente enjoativo depois do furor inicial. E caso deixe apenas a gororoba, a mistureba de estresses, perceberá um amargor que beira o pessimismo.

Nem sempre é possível acertar de primeira. Este é um prato que requer tentativa e erro, e, sobretudo, muita paciência. Uma vez que acerte na dosagem de cada ingrediente, no entanto, saberá que descobriu algo novo, e que tem, em suas mãos, uma obra de arte.

Bon appetit!

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