Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 20/12/2020: É tempo de melancias

Com um clique delicado, fecho o notebook, me espreguiço e me levanto. Sorrio.

A toda a volta, uma brisa suave entra pela janela escancarada, ornamentada com um gato que repousa no peitoril. Sem pedir permissão, ela despenteia meus cabelos, beija meu rosto, acaricia meu olhar.

Olho para o relógio, mas os números que vejo já não têm importância. Seria hoje uma tarde de domingo? Um anoitecer de quarta? Não importa – o hoje é o agora, e seu nome não faz diferença…

A passos distraídos, sigo para a janela. O gato insinua um movimento preguiçoso, uma espiadela de curiosidade, mas perde o ímpeto quando vê que está tudo na pacatez. Em algum ponto da vizinhança, já é possível ouvir o alto-falante do carro dos picolés. Com voz chiada, grita o convite: “Oito picolés por sete reais! Oito picolés por sete reais!”

Permaneço em silêncio, agora, acariciando o gato com tanta vagareza quanto eu me permitiria ter. De alguma casa próxima, também escuto os acordes de um violão. Tentativas iniciantes de tocar um country, sem dúvida. Me parecem tão promissoras!

O ar que entra, e que relaxa o felino preguiçoso – eu próprio – e o gato à janela, tem aroma de verão. Feito o cheiro do protetor solar, que, instantaneamente, remete a praia, é um aroma inesquecível. Sinto que, mesmo que passe anos e anos de inverno nórdico, de más notícias e desesperança, ao permitir que o perfume do sol toque minhas narinas, eu o reconhecerei de imediato.

Como agora.

Sem ruído que não a vida em marcha lenta no subúrbio, ou os passarinhos da estação, sei que estou diante de um presente divino. Mesmo sendo, eu próprio, um sujeito pouco religioso, reconhecer a beleza das coisas é uma benção e a prova de uma benevolência maior.

Sem aviso, o gato se levanta, me sacode para longe, e zarpa com suavidade para o pátio de casa. Corre atrás de algo que não vejo (um mosquito, talvez?), brincando por conta, se divertindo a valer. Divirto-me ao assisti-lo.

Enquanto me perco na contemplação de seus movimentos sutis, um segundo elemento se faz visível na rua, mais além de meu portão: é um homem que carrega um carrinho de mão.

Deixo meu olhar vagar livremente pelas roupas simples, pelo chapéu de palha, pelos dedos nodosos com que empurra o pequeno caminhão. No compartimento de carga, possivelmente as mais belas melancias que já tive o prazer de ver: verdes-quase-esmeralda, vicejantes, esplendorosas.

Perdido naquele devaneio, não reparo no semblante do homem, que, por sua vez, reparou na minha percepção. Rindo por baixo da máscara, me desperta do torpor:

– É tempo de melancias e girassóis, meu bom senhor!

Encaro-o como se nunca tivesse ouvido nada tão lindo. Por um instante fugaz, o sol e o ar, a brisa suave à janela, o gato preguiçoso e o notebook fechado, tudo de repente faz sentido.

E eu falo para ele:

– Que assim seja, meu amigo! Que assim seja!

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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