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Coluna Dia Um – 21/06/2020: Tapetinho do banheiro

Não é engraçado como, às vezes, demoramos a perceber algo que está bem diante dos nossos olhos? Ainda outro dia, reassistindo a um de meus filmes favoritos da pré-adolescência, me deparei com uma frase e foi como se nunca a tivesse visto antes: “Aqueles que amamos não nos deixam de verdade”.

Aquilo intrigou-me na hora. Havia algo ali, naquelas palavras, que eu não havia percebido (ou sentido) anteriormente. Mesmo sem entender exatamente o quê, eu sabia que havia. Alguma coisa mudara entre essa última assistida e as quatrocentas e vinte e duas outras.

Então, como quem tenta apanhar gotas d’água com as mãos, eu me propus a solucionar este mistério.

Não foi difícil, afinal, e fui premiado com uma resposta ainda na mesma tarde. Bastou que eu estivesse passando pela porta do banheiro, horas depois, e visse o tapetinho amassado de frente para a pia. O tapetinho. Enquanto o endireitava com o pé, fez-se a luz na minha mente, e tudo repentinamente fez sentido: quem amamos não nos deixa porque fica vivo nos detalhes!

Eu explico: todos temos cheiros ou comidas ou costumes que nos remetem a alguém especial. Seja o cafezinho que só a “bisa” sabe fazer, os blusões de tricô da vó, os trejeitos da mãe quando se esforça para não rir no meio de uma bronca, ou mesmo a gargalhada exagerada do tio nos almoços de domingo. Cada pessoa especial que passa por nossa vida deixa um pouquinho de si conosco, e talvez amar seja olhar para uma banalidade, para um detalhe insignificante, e extrair dali todo o significado do mundo.

Como o tapetinho do banheiro.

Infinitas foram as vezes que o vi sob os pés de meu avô enquanto ele o ajeitava impaciente – bem do jeito que faço agora. No meio da reclamação quase bem-humorada, eu captava frases esparsas, geralmente coisas do tipo “Não entendo como conseguem bagunçar o tapete” ou um sucinto “Tá louco”. Um suspiro resignado sempre concluía o pensamento, como se ele soubesse que iria continuar a encontrar o tapete amassado em ocasiões futuras.

Quando alguém consegue deixar a sua marca em nossa vida, em nosso ser, se torna imortal. Não importa o quão breve possa ser a passagem, ela se torna permanente. Uma visita eterna. Até porque o tempo, tão grandioso que é, não quer dizer nada quanto se fala da alma.

Então eu me lembro do tapetinho, e toda vez que o arrumo, evoco uma imagem de tempos felizes na minha mente. É quase como se visse o meu avô ali, diante de mim, e pudesse sorrir com ele, ajeitar o tapetinho com ele, compartilhar aquele momento insignificante e tão significativo com ele uma última vez.

Há também o cheiro da gasolina de quando íamos à pista de kart. O som dos motores, o óleo, a correria das equipes e pilotos. Nunca tive muito talento para isso – leia-se, sou um zero à esquerda. Mesmo assim, lembro-me com certo carinho de vê-lo andando de lado a outro, emanando sabedoria e uma aura de prestatividade, ainda que não gostasse dos holofotes.

Ajudar o próximo sempre foi a sua máxima.

Quando podia auxiliar quem quer que fosse com o que quer que fosse, era o primeiro a se dispor. Quando não podia, também. Era a prova de que é possível praticar o bem no dia a dia, de que as atitudes e os valores empregados na rotina são, na verdade, o maior reflexo da índole e do caráter – afinal, são o que nos traduz na maior parte do tempo.

Se eu tivesse que traduzi-lo em uma palavra, seria amor. Ou respeito. Ok, duas palavras: amor e respeito. Ensinou-me, em vida e sobretudo depois, que há formas de amar que vão além de palavras. São os ensinamentos. São os incentivos. São as ações que fazemos porque sabemos que é o certo a se fazer.

E não falo apenas de coisas grandes, de presentes, de ensinar a administrar o dinheiro e cultivar a ambição para o futuro. Não. Falo das coisas simples: da presença, de mostrar que, às vezes, alguns sacrifícios são necessários porque não se vive sozinho no mundo. Falo de amar nas pequenas lições do dia, na torcida silenciosa para que o outro alcance o que sempre almejou. Falo de olhar e realmente ver, enxergar não só o que há, mas o que pode haver.

Falo de viver para sempre, não necessariamente em fotos ou vídeos ou na mediunidade de alguém, mas em coisinhas descomplicadas que inundam o coração de alegria e saudade em igual medida, que fazem o sorriso vir aos lábios e preenchem de significado a mais singela das trivialidades.

Bem como o cafezinho, os blusões de tricô, os trejeitos e as gargalhadas, falo de pormenores que nos remetem ao amor. Que nos fazem ter a certeza de que, como diz a frase, aqueles que amamos realmente não nos deixam. Em lugar disso, assumem uma forma de luz que faz morada em nossa memória e em nosso coração.

E que nos presenteia com lembranças tão belas como esta.

O tapetinho do banheiro.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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