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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 26/04/2020: A minha primeira vez – por Ariel Fedrizzi

Redação

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Aconteceu hoje – há poucos minutos, para ser exato. O coração ainda não voltou ao normal. Torna a disparar quando lembro dos detalhes.

Foi ao som de Pink Floyd, como normalmente é com qualquer nova experiência. A todo o redor, os vapores de um banho recente relaxavam e aguçavam os sentidos em igual medida. Clima perfeito para permitir-se experimentar.

Eu não sei precisar muito bem o momento em que a decisão veio à cabeça, nem o que me levou a ponderar sobre ela, para início de conversa. Foi uma daquelas visitas prontas, pontuais, que chegam sem aviso e saem sem despedida. Normalmente, levam um pedaço de quem somos junto. Sei apenas que apareceu formada, inquestionável, a ideia concreta no meio do vapor. Quem seria eu para refutá-la?

Lembro do verso que tocava quando abri a gaveta. Era um questionamento: David Gilmour, nos vocais, questionava.

“Você já sabia o que viria a se tornar?”. Apropriado.

Arregacei as mangas e mergulhei na profusão de objetos perdidos. Temerosamente (porque eu já começava a hesitar sobre a minha escolha), não demorei a encontrar o que procurava. Sempre encontrava quando não sabia se queria realmente achar.

Por longos segundos, brinquei com a Gillette entre os dedos. Evitava olhar para o espelho, mesmo sabendo que o vapor não me deixaria encarar de volta. De qualquer forma, o ímpeto da ideia era forte demais para ser aplacado por covardias momentâneas. Ainda sem ousar erguer os olhos, pus mãos à obra.

Durante minutos a fio, passei a lâmina contra a pele do rosto. Eu esfoliava ansioso pelo que viria a seguir, e meu amigo Gilmour, a companhia cantante, continuava a explorar acordes já ouvidos antes.

Não demorou para que eu barbeasse todos os caminhos que normalmente contemplava. Mas desde o início eu sabia que iria além desta vez. Quando cheguei ao queixo e os fios de barba que eu cultivava há três longos anos saltaram ao toque, deparei-me com nova onda de indecisão. Um dilema moral.

Acariciei aqueles pelos enraizados no queixo, a lembrança da decisão que tomara ao assumir um ralo cavanhaque de jovem-adulto. Sempre almejando parecer mais velho. Sempre almejando parecer mais sábio.

Bem, os dados haviam sido jogados, e eu não chegara ali para recuar. Escudos abaixo!

Os três últimos anos de minha vida pereceram com mais facilidade do que eu imaginara quando os ataquei sem dó com a Gillette. Ainda temendo o grande momento de encarar o resultado de minha escolha, eu me concentrava em destrinchar e eliminar todo e qualquer vestígio de tempos passados – recentes – do rosto.

Quando terminei, permiti-me uns segundos de silêncio que calaram até mesmo Gilmour. Depois, hesitante, receoso, toquei o espelho com os dedos e arrastei-os para o lado, limpando a visão.

E então me mirei.

A perplexidade ainda não me deixa encontrar palavras para descrever o resultado. Mas de uma coisa eu sei: fui saudado com um sorriso sincero pelo menino que me olhou de volta do espelho.

Nos encaramos por aqueles três longos anos e muitos mais. Olho no olho. Olho no rosto, na verdade. Vi um detalhe no queixo do menino, um que eu não lembrava de ter visto em nenhum momento antes. Quando foi que surgiu? Desde quando tem me acompanhado?

Vi o brilho juvenil das maçãs, o rosto magro, imberbe, despido. Não havia mais a “coceirinha”, a cobertura, a proteção; apenas sonhos e dúvidas, inocência e ambição.

Sustentamos aquele olhar silencioso, mas carregado, e o sorriso nos lábios. Eu me sentia, na realidade, afrontado pela audácia daquele rapaz. Parecia debochar de mim, como se soubesse de algo que desconheço – e talvez saiba, eu não sei. Só sei que todos os homens deveriam experimentar o desafio de colocar-se cara a cara com o menino interior. Será que nós realmente os deixamos de lado quando crescemos?

Fica a reflexão na forma de convite.

Escudos abaixo. Este é o lema. Agora minhas mãos sobem o queixo à procura da barba quando me concentro. Mas não encontro nada. Como é que o menino fazia antes de se cobrir?!

Lembro com clareza da primeira coisa que fiz ao adotar o cavanhaque, no início desses três longos anos de hiato: mandei uma foto para o grupo dos amigos. E nesta noite, parecendo outro surpreendentemente familiar, me preparo para repetir o ato; sopro o apito para um marco final e início de um novo ciclo.

Hoje, despi-me para reconectar. E agora recomeço.

ARIEL FEDRIZZI: com 23 anos de idade e natural de Caxias do Sul (RS), é fascinado desde sempre por contar histórias. Ele tem nas palavras a chave para dar voz ao que não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, da Faculdade da Serra Gaúcha – FSG – e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários.

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