Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 27/12/2020: Restos da ceia entalados na garganta

Na calmaria pós-Natal, o mundo mergulha numa espécie de transe. A expectativa pelo Ano Novo recai, silenciosa, sobre as casas e seus grandes gramados. Restos de ceia são postos à mesa; o ar varre, com preguiça, algumas folhas no quintal.

Feito as ondas que voltam ao mar no recuo da maré, tudo permanece suspenso. As únicas vozes vêm da TV, que, na verdade, nunca realmente para de falar.

As notícias chegam num fluxo contínuo, incessantes e quase enigmáticas para o cérebro que está em torpor. Falam sobre tudo o que já foi dito, mas não param por aí: que nem um chute na porta, trazem péssimas novas, como se desafiassem a mente humana a questionar a própria sanidade.

Cinco mulheres. Mortas por parceiros e ex-parceiros no período de Natal.

Antes da ceia, durante, depois – não importa. Bem como não importam os motivos – existe motivo plausível para matar?! Cinco vidas tiradas em momento que deveria ser de afeto, de reencontro, de confraternização.

Como se não bastassem as manchetes, a TV dá sequência aos impropérios. Fala, em detalhes e sem pudores, sobre como elas foram esfaqueadas na frente dos filhos, sobre quantos tiros levaram, sobre as crises de ciúme e os outros tantos pequenos indícios que precederam a tragédia.

A comida ameaça não descer em protesto. A cereja escapa às garras do garfo, e os olhos, desconfortáveis, se recusam a olhar para o televisor. Mas é o som o portador das verdades que preferimos ignorar, e as notícias continuam.

Há mulheres mais jovens, há mulheres mais velhas. Há mães e filhas e avós. Em comum entre todas? A menção ao parceiro, ao ex-parceiro, a proximidade entre agressor e vítima. Em tom de lástima e desespero, uma repórter quase comemora que algumas outras mulheres conseguiram algum suporte, senão o número de mortas seria ainda maior.

Na realidade, ele é. As cinco do Natal representam as mais de cinco de todos os outros dias – o Brasil carrega uma média de um feminicídio a cada 7 horas. As cinco do Natal representam as mais de cinco, as muito mais de cinco, que sofrem abusos em silêncio, que escondem suas feridas até que elas lhe tirem todo o sangue.

Num país em que o feminicídio passou a vigorar no Código Penal apenas em 2015, a estrada ainda é longa. Até lá, por mais que os restos da ceia permaneçam entalados na garganta, arranhando a compreensão, é nossa obrigação comer em silêncio. É nossa obrigação ouvir as atrocidades cometidas contra aquelas que lutaram por sua voz, e, por nossa vez, garantir que não o tenham feito em vão.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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