Jornal do Povo

Coluna Dia Um – 28/03/2021: Com as calças na mão

*Crônica anterior à pandemia, resgatada no sótão da bagunça do computador.

Fim de tarde de céu alaranjado. Temperatura elevada. Eu, minha mãe e o irmão caçula a caminho da sorveteria num daqueles programas de improviso – o típico “Vamos?” “Vamos!” – que só são possíveis no verão.

Sorvete montado como deve ser: balas Fini, cobertura de morango, sabores sortidos no pote, chamando o olhar. Bem como numa partida já definida antes do apito final, era possível sentir o gosto da obra-prima por antecipação. Os olhos comiam antes que a boca pudesse experimentar.

A toda a volta, famílias que haviam tido a mesma ideia que nós já se deliciavam com seus refrescos. Outras saíam do buffet em direção às mesas, ansiosas. Sentado no sofazinho que havíamos conseguido, eu me preparava para o que seria um esbalde completo!

Meu irmão e minha mãe, práticos, já tinham começado; o silêncio reinava ali. Quando enterrei a pazinha com gosto nas bolas de sorvete e me preparei para levá-la à boca, só existia o agora. Eu ansiava pelo momento em que salivaria aquele doce com gosto de férias…

Mas então aconteceu.

Na fração de segundo que antecedeu o toque aos lábios, naquela pulsação em que os olhos estão vesgos e meio fechados tentando focalizar a cada vez mais próxima colherada de sorvete, os meus olhos focalizaram algo a mais.

Antes que pudesse saborear a sobremesa – ou então afastar a colher do rosto e recuperar a compostura –, vi que uma garotinha me observava da mesa ao lado.

Não houve escapatória daquele olhar.

Enquanto todos no recinto comiam e conversavam, ocupados demais para prestar atenção aos outros presentes, eu fora a vítima daquele inocente par de olhos elétricos que nada deixavam passar.

Enfiei o sorvete inteiro na boca, constrangido, receoso de voltar a encarar a pequena criança. Mas da mesma forma que acontece com uma aranha na parede do banheiro, eu precisava olhar! Esguelhei uma, duas, três vezes: ela não mudara o foco do mico que me vira pagar.

Terminei de comer com vergonha demais para qualquer coisa. Rebobinava a cena na minha mente, e a cada assistida, o quadro parecia pior: os olhos semicerrados (como os de alguém prestes a dar um beijo na boca); a cabeça curvada na ânsia pelo alimento; filetes de sorvete possivelmente escorrendo para os dedos, para o queixo.

É. Eu definitivamente fora apanhado com as calças na mão, no flagrante mais vulnerável em que um adulto pode se encontrar.

Logo que terminamos de comer e nos preparamos para sair, eu espiei para a mesa da garotinha: estava vazia. Parece que a sua missão fora apenas se colocar na minha vida com aqueles holofotes refletindo curiosidade – e certo julgamento silencioso, não vou negar – para me mostrar que o infinito às vezes pode durar o equivalente a uma troca de olhares, e que nem sempre isso é sinônimo de uma cena bonita de algum filme sobre o amor…

Às vezes, mais se assemelha a uma comédia de baixo orçamento.

Ariel Fedrizzi

Ariel Fedrizzi

Com 24 anos de idade e natural de Caxias do Sul – RS, Ariel Fedrizzi é fascinado desde sempre por contar histórias. Tem nas palavras a chave para dar voz a quem não é ouvido e trazer luz ao que não é visto. Cronista por exercício, poeta por preguiça, contista por pendor, teve diversos artigos publicados no Jornal Pioneiro, mas tem sede por mais. Iniciou, em fevereiro de 2019, um projeto de divulgação do seu trabalho autoral nas redes sociais, e hoje conta com participação em alguns eventos literários no currículo (destaque para o Fora da Caixa, do Centro Universitário FSG, e para o Sarau de Poesia do Instituto Cultural Taru), e, claro, a materialização de seus escritos através dos cards literários, uma de suas maiores invencionices.



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