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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 28/06/2020: O artifício da última vez

Ariel Fedrizzi

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É até complicado tentar colocar em palavras a irredutibilidade do tempo, porque ele é simplesmente assim. Indomável. Implacável.

Vivenciar um momento aparentemente trivial, para, só então, perceber que foi um vértice, o fechamento de um ciclo, é como tentar pacificar uma fera solta nas ruas: qualquer ação tomada pode trazer consequências não consideradas, e as ações da fera, por sua vez, são impossíveis de prever.

Assim segue o tempo para com a nossa percepção. Quantas vezes frequentamos algum lugar ou conversamos com alguém pela última vez! E quantas vezes encerramos ciclos sem realmente nos dar conta – deixamos de pegar o mesmo ônibus, fazemos uma última visita à academia, ou integramos uma derradeira roda de chimarrão com um parente distante.

É difícil valorizar trivialidades porque não temos como saber se são especiais. Não temos como descobrir que a pedrinha, na verdade, é uma pérola perdida que caiu em nossas mãos. A nossa última vez pode ser hoje; pode estar sendo agora, inclusive. E nossa posição enquanto seres humanos desprovidos de onisciência e poder não nos deixa saber.

Aceitar o fato de que não podemos prever o imprevisível – talvez porque as linhas ainda não tenham sido escritas, talvez porque não saibamos pular para a última página e dar uma espiadinha no final – é aceitar viver com humildade e procurar significado nas coisas do dia a dia. Ainda assim, soa quase zombeteiro pensar que estamos fechando ciclos a todo momento, sempre preocupados com aqueles grandes demais para deixarmos passar.

O abraço às nossas limitações, sem qualquer resignação, é algo complicado. Normalmente acabamos cedendo, e só. De uma forma ou de outra, pequenos ciclos (a última vez que ouvimos alguma canção, a nossa última viagem, o dia antes de pedirmos as contas no trabalho…) e grandes ciclos (a iminência e a eventual consolidação do divórcio, o passeio final com nosso cachorro antes de a idade levar a melhor, a última vez que ouvimos a voz de alguém amado…) se entrelaçam como centenas de pequenas esferas num receptáculo maior.

Dia a dia, segundo a segundo, são retiradas num sorteio divino – ou fruto do caos ou acaso ou resposta às nossas ações, o que preferir – e seu conteúdo derrama efeitos sobre nossas vidas.

E nós seguimos incertos, apenas na torcida para que não percamos algo na próxima esfera… nem na próxima… nem na próxima…

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