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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 30/08/20: Previsão do tempo

Ariel Fedrizzi

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Há um odor no ar, hoje.

A cidade amanhece às pressas, tão trivial e naturalmente quanto em qualquer outro dia. Vagarosos, os carros aceleram. Conduzem condutores que espreitam as grandes caminhonetes à dianteira.

O tempo se atropela quando tenta sincronizar suas badaladas com o tique-taque dos passantes. Aqueles que já não conseguem suportar o próprio peso recorrem à fragilidade das bengalas; sempre tentando retardar ao máximo a linha de chegada – e, ainda assim, se precipitando para alcançá-la…

Tique-taque. Tique-taque.

As latinhas arremessadas ao vento são apanhadas antes que encontrem o chão. Alguém as colhe como flores, não é mesmo? Esperando, dali, obter sementes ou frutos para a mesa de jantar.

Da mesma forma, palavras são jogadas ao ar: o resultado do jogo, a renegociação da dívida, a instabilidade no céu carregado. Todos falam, na esperança de que o outro não fique em silêncio por tempo suficiente para notar o mau cheiro que infestou a cidade.

Em alguns pontos, guarda-chuvas guardam corpos dos olhos famintos por morbidez. A notícia se espalha rápido, é verdade, mas é logo abafada pelo desinteresse assim que o furor se volta para a última novidade. Repetidamente.

Dizendo que gostariam de poder fazer algo para ajudar, todos correm para chegar a suas casas antes que o temporal desabe – como se a chuva continuasse a cair para baixo! Nas marquises, pessoas esbarram em posses acumuladas: colchões amontoados, vestes ostentando rasgos, a pobreza e a solidão clamando por um olhar, e recebendo apenas esgares.

Tique-taque. Toc-toc.

Ouvem-se batidas na porta. Ouvem-se gritos de socorro e ecos de gargalhada infantil ao descobrir o mundo. Num instante, o menininho dá os primeiros passos livre do aperto da mãe; em seguida, se vira preocupado, já homem, ao perceber que ela se foi.

Chama e grita. Ri e chora debaixo do iminente temporal.

As engrenagens que trabalham por detrás da redoma assistem ao seu impasse. São uma espécie de entidade onisciente, mas não exatamente maligna. São apreciadoras do movimento das peças no tabuleiro, admiradoras passivas do caos.

Seu maior deleite é o andar de todos; acham graça nos discursos de partilha, na avareza e na ira. Mas não deixam de se impressionar, também, com todo o esmero colocado na tarefa de ignorar o mau cheiro, de fingir que não há podridão sufocando a cidade a cada novo dia… mesmo quando todos já não conseguem respirar.

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