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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um – 31/05/2020: Pequenas bonitezas

Ariel Fedrizzi

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Morar em casa de madeira é uma lição sobre sutilezas e detalhes.

Quando as telhas se mexem durante a noite, ou quando o sol em excesso aquece os cômodos e desbota a madeira, você começa a apreciar os mínimos movimentos do lar. As marquinhas escuras em algumas das tábuas de repente formam constelações, e antes que perceba, você está numa jornada interplanetária para se tornar um só com o santuário onde vive.

As casas de madeira recendem a aconchego. Você encontra o calor e o valor de um abraço quando se deixa jogar de cabeça contra o inverno iminente. Munido de quatro paredes e de uma boa xícara de café, você tem o que precisa. Não à toa, madeira e cafeína foram coloridas de sépia – quer coisa mais acalentadora que o rústico?

Uma casa assim é uma caixinha de surpresas: por mais que você conheça todos os lugares onde um passo desperta um rangido, pode ser pego desprevenido ao descobrir outros sons. A caixa d’água no sótão, por exemplo, às vezes embala sonhos; toma o papel de uma noite chuvosa e corre pelo lar como se bombeasse sangue no organismo.

Nos filmes, também, há outros tipos de beleza. Ver a neve se acumulando no telhado feito glacê faz a casa inteira parecer um delicioso pão doce – ou um grande casadinho, preto e branco, o que preferir. Ver a lenha na fogueira, sentir o calor que emana da madeira… Dá vontade de pegar uma trouxinha de roupas e se mudar para ali instantaneamente. Nunca mais sair!

Casa de madeira é tudo de bom. Nos remete a campo, natureza, primavera, verão. Nos remete a família, e o desejo de jogar cartas sentado na varanda logo salta no peito. Instalar um balanço e curtir a brisa do vento. Chamar primos e tias, bisas e tio, para um almoço tardio de domingo. Fingir que se vive num sítio, num espaçoso e pacato sítio.

Vivemos um completo estilo de vida quando moramos assim. Aprendemos a ler as rugas do soalho, o sacudir das venezianas em dias de vento, os canteiros suspensos no jardim, enfeitando a decoração. Aprendemos a ler quando o sol pálido esquentará em demasia a casa, e quando caberá a nós dar uma demão de tinta nas tábuas para manter os infames cupins afastados.

Em suma, nos tornamos seres humanos mais cuidadosos e conscientes do que nos cerca. Mais empáticos, de certa forma, por entender as necessidades da casa. E mais corajosos também – afinal, não deixa de ser um teste de bravura encarar os ruídos da madrugada e o estalar das telhas depois, por exemplo, de assistir a um filme de terror.

É habitar o lar no sentido mais honesto possível. Explodir de incontido orgulho toda vez que alguém elogia o esmero com que tratamos o nosso reduto.

É carregá-lo conosco mesmo quando não estamos ali.

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