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Coluna Dia Um

Coluna Dia Um: O tigre da minha vida

Ariel Fedrizzi

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Por muito tempo me perguntei como começaria este texto, quando fosse hora de escrevê-lo. Nunca é fácil colocar para fora palavras de despedida.

Talvez eu pudesse começar dizendo que escrevo a partir da dor. Ou que você se foi cedo demais.

Talvez eu pudesse começar dizendo que não era para ser assim. Que as coisas são injustas e que não entendo por que você teve de nos deixar…

Exceto que estas coisas não são verdade.

Enquanto olho para trás e busco na memória o que vivemos, o sentimento que vibra mais forte no peito – mais forte que a própria perda – é a gratidão.

Não preciso vasculhar a caixinha de lembranças por muito tempo para trazer à tona vivências que me fazem aflorar o riso. Consigo pensar no seu cantinho favorito da grama sem esforço, ou em como você gostava que lhe fizessem carinho nas costas. Consigo até mesmo visualizar aqueles fiozinhos cor-de-tigre que você tinha na barriga – um dos tantos charmes que nos encantavam.

Quando olho para trás, sinto-me grato e inundado de bênçãos por ter sido o escolhido para receber o seu amor por estes longos anos. Foram dezoito, se meu cálculo está correto; minha existência se deu por mais tempo com a sua companhia do que sem ela.

É claro que dizer adeus nunca é tarefa fácil. Tampouco olhar para as suas fotos ou lembrar das suas manias e das nossas histórias. Recordo-me de, ainda criança, correr em volta da casa atrás de você e seus irmãozinhos… Tempos despreocupados aqueles, não é?

E agora, várias páginas depois, cá estamos, cá estou: sorrindo com o resgate afetivo e sabendo, no fundo, que você partiu porque cumpriu com o seu propósito de amor e fidelidade. Foi-se antes, mas amou e permaneceu até o último suspiro.

O que me resta é agradecer aos céus, ao destino ou ao acaso por aquela fria noite de agosto. Por termos saído de casa, minha família e eu, como saímos. Por termos avistado a pequena caixinha de sapatos ao pé do poste, invisível aos olhos da cidade, mas abrigo de cinco vidas felinas.

O que me resta é agradecer por termos podido cuidar e ser cuidados; nutrir e ser nutridos de afeto quando encontramos lares para alguns daqueles filhotinhos e decidimos adotar os que restaram. Seu irmão e você.

Hoje, me despeço, mas sei da sorte que tive ao ganhar, naquela noite, um companheiro tão leal e infinito.

Descanse em paz, tigre.

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