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Crônicas do Anoitecer – 11/06/2020: Cigarros estranhos amigos

Arthur

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Das madrugadas tirei algumas coisas. As gripes, o sono, lágrimas, alguns poemas, crônicas e outros vícios. O cigarro é um deles, me acompanha mais como uma contemplação do que vício, por isso vale a pena diferenciar. Meu fumar é transcender juntinho da fumaça. Tentar relevar um pouco as impurezas do labor com um pouquinho mais de impurezas de menos de 10 cm e 3 minutos cada. Que fique claro que o meu fumar não é morrer, é justamente viver, porque é escrever sem se sentir tão pesado e preso, uma libertação estranha, tudo bem.

Mas ”os fins justificam os meios”, fácil solução de Maquiavel: pelo menos nesse ponto prefiro acreditar numa estúpida e célebre justificativa dessas. Ser só gás, sem forma, sem definições e coisas que me prendam. Voar pela janela, pelos quartos, dançar com outros gases, luzes, poeiras do ar e depois do fim do baile virar atmosfera. Transcender enfim. Minha vontade de fumar está indiscutivelmente ligada com minha necessidade de sonhar, ou melhor, sobreviver e escrever, eu só vivo se escrevo, e se escrevo é que estou sonhando. Termina um, outro pede boca e eu dou, termina o outro, mais uma linha, e eu peço tabaquinho pra ele e ele me obedece. E assim a gente se entende, numa estranha relação perigosa (meio mortal) de matéria e subjetividade. Vício e poesia. Prazeres e inspiração.

A madrugada é nossa cama, e as estrelas os lençóis que nos conduzem nesse fraterno abraço, o universo é o único limite quase palpável. Com meu isqueiro e meus lábios dou razão pro cigarro existir, e em troca ele me mata, mas me liberta como nunca antes, a morte é um tipo de liberdade se morar em metáforas e deságues poéticos. Que nem a fábula do sapo e o escorpião: quando finalizo minha travessia diária, meu pecado é confiar minha poesia em quem me alivia, mas no fim me envenena. Até chegar ao orgasmo, o apíce da noite e pensares filosóficos, contraindo meus bronquíolos e talvez a carteira já vazia, então, cada um segue seu rumo, vira no colchão e vai dormir, porém com uma certeza, que os dois ficaram satisfeitos. E que na próxima madrugada, vai ter tudo de novo. Seremos livres outra vez.

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