Jornal do Povo

Crônicas do Anoitecer – 16/06/2020: O vulto que volta e ri

Abri minha janela. Sentei na poltrona de todas as horas. Olhei meu celular e acabei vendo uma foto. De repente, percebi que ainda não superei, e sinceramente nem sei mais se quero superar, a última ferida que o cupido me deixou pelo visto ainda arde. Às vezes só é preciso relevar, ignorar, mas no meu caso, as fotos, os sorrisos, os corpos seminus, não deixam que esse ciclo se encerre. Que o meu amor possa se curar totalmente, e por isso marca seu compasso solitário no meu peito, naquelas fotos que quando aparecem na timeline eu me ponho em silêncio, introspecção e turbulência interna ao mesmo tempo.

Me vejo sentindo uma falta e não sabendo o que me falta pra esquecer de vez aquilo. Se apagasse as lembranças apagaria o que foi maravilhoso, e não só o que foi ruim. Findaria minha alegria em poder ter vivido, sentido e experimentado todas as sensações que aqueles momentos me trouxeram. Abaixei o celular. Tentei sorrir um pouco. Mas as lágrimas queriam vir, eu sei porque senti no coração, nada. Agora, já não era somente uma volta do mesmo ciclo insistente, e sim um vulto, um fantasma que me persegue rindo escondido. Que horas me fere e outras me abraça, quando tanto o abraço como a ferida ficam ali, e me exigem um relato como esse, de mágoa e contentamento, cronicamente humano e recordativo.

É certo que ele viu: eu no chão, encostado, os beijos no tapete cinza da sala. O carinho com o pé nas coxas suadas, e os pelos que enroscaram nos lábios. Certo que viu o primeiro beijo, juntinhos na parede por uns 30 minutos, e eu querendo que eles fossem eternos. Que viu a noite que dormimos abraçados, as pernas coladas e a cabeça repousando no meu peito e sorrindo, quando não tinha mais ninguém, e tudo era só nós no apartamento. Viu as chamadas por longas horas, e as lágrimas que chorei como um palhaço borrando a maquiagem de achar que nunca fosse acabar. Nossas mãos brincando em plena madrugada, e as tantas palavras debaixo do chuveiro.

O cupido vê tudo e ri quieto, no meu coração, porque sabe que alguns se amam, mas de forma diferente, e que às vezes o pra sempre também é muito tempo. E que apesar de várias fotos, lembranças e alguns segredos: a brasa gela, a pele envelhece e o vulcão volta a dormir. É possível amar alguém e se entregar, na verdade só assim se ama de fato, não que fatos representem o amar, mas a poesia do cuidado, do respeito, do acordar cada dia com a certeza de que àquele que dorme ao lado também te ama, e vai te acompanhar nos piores e melhores segundos de toda a vida. A paixão existe, a dor nem se fala, mas o amor: talvez nem todos ainda possam, ou saibam entender.

Arthur

Arthur

Arthur é jornalista, escritor, músico e produtor cultural. Atual Presidente da Academia Caxiense de Letras - RS (2020/2021). Vice-presidente da UBT - Seção Caxias (2019/2020). Colaborador de diversos jornais, revistas e blogs pelo país.



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