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Cinema

Entrevista: As diversas facetas de Waner Biazus

Gustavo Tamagno Martins

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Não bastasse as suas inúmeras expertises, o caxiense Waner Biazus já está “perdendo as contas” dos prêmios e das indicações que está recebendo mundo afora com seus dois curta-metragens “The Neighbor” (“O Vizinho) e “Ego Sum!”(que em latim significa “Eu Sou”). Recentemente, o último se tornou finalista no Holy Grail International Film Festival, em Jerusalém, capital de Israel. A produção que faz relação com as pinturas imortalizadas por Aldo Locatelli nas paredes e no teto da Igreja São Pelegrino – local onde foi gravado – já foi laureada 35 vezes, em seis países.

Com participações de figuras conhecidas na cidade, como o livreiro “Maneco” Arcângelo Zorzi (Menção Honrosa em Los Angeles como ator coadjuvante), o fotojornalista Marcelo Casagrande e a atriz Gabriela Furlan (Premiada na Itália como melhor atriz no filme de Waner), a gravação de “Ego Sum!” ocorreu durante cinco madrugadas inteiras, no inverno de 2014. As filmagens iniciavam depois da última missa na igreja e iam até por volta das 6h do dia seguinte. A produção de Waner se tornou o curta-metragem mais premiado em Festivais Internacionais de Filmes Independentes (Indie Films) e já foi premiado nos Estados Unidos, Índia, Itália, Líbano, Finlândia e Israel.

Waner de olho no enquadramento durante gravação de “Ego Sum!”  
Fotografia: Luiz Coutinho

No Planeta Terra desde 1954 e esbanjando saúde e talento, Waner é natural de Flores da Cunha (RS), mas mora em Caxias do Sul desde os seus três anos de idade. Ilustrador, Publicitário, Diretor de Criação, Designer Gráfico, Diretor de Cenas, Diretor de Fotografia, Produtor, Editor, Roteirista, Redator e Arqueiro são alguns de seus títulos.

Contabilizando mais de 600 clipes comerciais para televisão, começou a encarar a publicidade com 17 anos, quando fez o curso de desenhos animados. Além disso, foi o primeiro publicitário da cidade que fez comerciais de televisão com filmes 16mm e 35mm, bem como o primeiro a trabalhar como diretor e, ao mesmo tempo, fazer a direção de fotografia.

Sempre conhecido por sua criatividade em brincadeiras e brinquedos quando jovem, frequentava matinês – hoje as salas de cinema – nos domingos quando eram exibidas duas sessões de filmes. Enquanto os amigos debatiam sobre a história do filme, Biazus se questionava e prestava atenção em como a produção era filmada.

Sócio-proprietário da agência Planet House Propaganda e com um talento invejável, o publicitário Waner Biazus abriu os baús de suas memórias e nos contou sobre sua promissora carreira e o que influenciou e inspirou a ter o qualificado currículo que tem hoje.

:: Primeiramente, o que o menino Waner gostaria de ser?

– Waner Biazus: Desde menino sempre me destaquei na parte de desenho, quando os meus coleguinhas desenhavam as figuras humanas em palitinhos, eu já desenhava com volume. Então isso era um instinto, eu não tinha noção de como era um desenho, mas já desenhava com proporção. Comecei a me destacar desta forma no colégio. Eu era solicitado o tempo todo para ir no quadro, principalmente nas aulas de Ciências para desenhar corações, fígados, coisas que a professora não sabia. Daí meus colegas começaram a me procurar para que eu fizesse desenhinhos e assim foi evoluindo a história toda. Chegou em uma época que eu era requisitado para fazer caricaturas dos professores, dos colegas, e isso foi mexendo comigo. Comecei a me interessar muito por Histórias em Quadrinhos e me tornei autodidata, porque na época era difícil. Lendo gibis, que eles eram meio proibidos, eu procurava copiar os desenhos e fui criando minha técnica dessa forma.

Com um salto no tempo, eu trabalhei para uma editora de São Paulo, em que eu fazia os roteiros e as HQs e o que eu ganhava não paga nem o material. Fiz um curso de Desenho Animado com 17 anos, no qual aprendi a trabalhar com câmeras, com filme e o que era um frame. O curso começou com mais ou menos 200 pessoas, e um mês depois estávamos em 50, porque só ficava quem sabia desenhar. Comecei a me interessar e pensar no que ia fazer. Minha família queria que eu fosse médico ou engenheiro, mas o meu negócio era desenhar personagens. Eu ouvia seguido que isso não ia me levar a nada e que eu não ia ganhar dinheiro. Isso fez com que eu cursasse cinco anos de Arquitetura. Nos tempos do curso, ganhei o primeiro prêmio na categoria Desenho da Primeira Obra Aberta da Unisinos. Personagens de quadrinhos “derrubaram” grandes projetos de arquitetura. Na época foi uma inovação. Mas não cheguei a concluir o curso. Pensei: qual a profissão que eu posso exercer e que me permita que eu desenha, que eu faça meus filmes… era óbvio, a Publicidade e Propaganda. O menino Waner começou assim. E o menino Waner de hoje, continua com as mesmas ideias de antigamente. Sempre fui uma pessoa que queria sempre fazer uma coisa diferente. Comecei a me destacar também na publicidade. Não fico parado, sempre procuro cair fora dos conceitos e pré-conceitos. É aquele menino de antigamente que hoje ainda está pulsando dentro de mim. Em uma analogia, hoje meus personagens, ao invés de palitinhos, já estou fazendo com volume. A minha veia artística começou desde que eu nasci e vai terminar o dia que eu abotoar o paletó de madeira, como dizem por aí.

:: Seja na publicidade, nas ilustrações ou até mesmo nas produções audiovisuais, sempre esteve “fazendo arte”. O que a arte representa em sua vida?

– Waner Biazus: Quando eu faço um trabalho, quer seja de ilustração quer seja de vídeo, eu trabalho muito usando a cartela de cores, o círculo cromático, a combinação de cores. Faço uma prévia antes de fazer qualquer trabalho. Outra coisa que cuido muito é a lei da secção dourada ou ponto de ouro como muita gente chama. É um conceito criado por artistas de longa data, onde se coloca a imagem para ter destaque na tela. Tanto as ilustrações quanto os quadrinhos me influenciaram muito. As HQs me deram uma linguagem de vídeo muito bom. Como se fosse um vídeo parado. Então para mim é uma facilidade muito grande com esses conceitos, porque a hora de enquadrar uma câmera, sei o ângulo que eu quero, como vai ser a linguagem final. Eu faço histórias em quadrinhos e sei dar uma sequência lógica. Não é filmar por filmar. Antes de fazer qualquer trabalho precisa pensar na criação da ideia, secundagem, quanto tempo leva cada cena, uma tomada de câmera, tudo pré-estudado. Já fui muito criticado no começo, por chegar com prancheta e com cronômetro. Agora já tem um monte de gente usando claquete. Eu sempre digo que a minha influência profissional foram as histórias em quadrinhos, foi ali que comecei toda a minha linguagem e o meu diferencial. Fui me aperfeiçoando com os estudos das cores e passei também para a fotografia. Fiz muita fotografia publicitária, com cenários, fotos de móveis e objetos. O estudo da perspectiva no desenho me possibilitou a criar cenários de perspectiva forçada, quando não se tem cenário completo. Hoje é difícil por causa de orçamentos. Basicamente é ver o ângulo da câmera antes de colocar a câmera na posição. Além disso, o estudo de luz e sombra, que possibilita a dar dimensão e volume nos objetos. É uma pena que não consigo em um trabalho fazer tudo isso. Enfim, é muito complexo fazer uma foto, um vídeo ou um desenho… tem que ter arte nisso. Sempre coloquei arte nos meus trabalhos, por isso eles têm um destaque muito grande. Só que ultimamente o pessoal não está dando muita bola para a arte, está criando uma poluição visual. Misturam fontes, misturam cores, tudo de forma aleatória. Ou seja, todo mundo está fazendo, sem o mínimo de conhecimento, na grande maioria.

:: Trabalhando há mais de 40 anos com publicidade e propaganda, quais os maiores desafios (e perrengues) que teve até hoje?

– Waner Biazus: Um dos maiores desafios que eu tive como agência foi uma cozinha que ia ser lançada por uma empresa de móveis. Eles largaram em nossa mão e não sabiam como fazer. Foi feito um comercial de televisão filmado em 35mm e depois passado para um VT de três minutos. Até hoje esse lançamento é lembrado, marcou época. Quando terminava a novela das oito horas, tinha uma janela comercial de três minutos no estado do Rio Grande do Sul, e depois começava o Jornal Nacional. Ela se encaixava ali. O cliente viu a cozinha montada no dia que a gente fez a filmagem, nem ele sabia como ia ficar. Para ver o tipo de lançamento. Foi fantástico e posicionou a empresa como está hoje. Todos os trabalhos que tive liberdade para criar, foram os que mais deram certo. Os trabalhos que foram modificados pelos clientes, foram os que deram menos resultado. Sempre foi assim.

Em mais de 40 anos, eu repeti em toda a minha vida algumas cenas de apenas três VTs. Um deles foi que a filha do cliente fez parte da gravação e foi colocada apenas dois segundos dela. Tive que editar de novo para colocar a filha dele em cinco segundos. Outro perrengue foi com uma empresa que fiz um trabalho diferenciado. Mostrava um lance de câmera passando a lateral de um produto que tinha o nome da empresa. Voltei a editar um segundo a mais porque o cliente queria que aparecesse mais o nome da empresa. Um outro, que inclusive ganhei o prêmio Profissionais do Ano, era um trabalho de final de ano em que um ébrio estava bebendo sozinho em casa e acontecia um milagre de Natal.O homem dava uma cuspida no chão. O cliente não gostou e fez eu tirar. O comercial ganhou prêmio da Rede Globo e o cliente não sabia nem o que dizer depois. Não tive muita coisa de perrengues porque a linguagem que eu colocava em todos os trabalhos era muito pensada, dificilmente dava errado. Hoje em dia está muito complicado porque todo mundo “entende da coisa” e critica. É muita pirotecnia para pouco resultado.

:: Como surgiu a ideia em criar a Planet House Propaganda Produções & Marketing, renomada agência de propaganda da qual é sócio-proprietário?

– Waner Biazus: Eu trabalhava em uma empresa com a Danir (esposa e também sócio-proprietária da agência hoje). Ela atuava como relações públicas e eu no departamento de produção e criação. Tive que viajar para os Estados Unidos para fazer uma cirurgia e acabei precisando sair dessa agência. A Danir também queria sair e abrir uma própria então me pediu uma ajuda. Sugeri o nome de Exacta Assessoria e Publicidade Ltda – o que ficou e preparei o logotipo. Depois viajei para os Estados Unidos e fiquei um ano por lá. Quando voltei, a Danir pediu se eu não queria ser seu sócio. Virei sócio dela e sou até hoje. A atração mútua era grande e já viu… (acabaram casando). De cara, a gente já pegou um trabalho complicado, um institucional de uma empresa grande. Ela ficava no atendimento e eu na criação, e isso deu super certo que começaram a nos procurar. Fomos trocando de endereço para salas maiores, e chegamos a ter 26 pessoas na equipe. Após mudar-se por quatro vezes, eu disse: vamos criar o nosso prédio próprio – onde é hoje. Quando mudamos de endereço, trocamos também de nome, de Exacta para Planet House Propaganda. E assim fomos dando continuidade. Viajei para os Estados Unidos mais sete vezes e minha linguagem foi aumentando. Potencial a gente tem, o que a gente não tem é recurso financeiro para fazer os trabalhos. 

:: Entre tantas expertises, estão a direção, a edição e o roteiro de dois premiados curtas-metragens. A própria técnica de desenhar quadrinhos e cartoons influenciou na sua habilidade de contar histórias, escrever um roteiro e até mesmo entender os diferentes ângulos de uma câmera. Qual a sensação em ver suas produções ultrapassando as fronteiras? Tem novos projetos de filmes ou curta-metragens preparados para lançar?

– Waner Biazus: O pessoal me dizia: “tu é muito bom para contar história. Por que não faz um filme?”. Se eu conto uma história em trinta segundos e em três minutos, o que eu não faria com vinte, trinta minutos? Dá para “deitar e rolar”. Então o primeiro foi o “The Neighbor”. Baseado em meus storyboards (histórias em quadrinhos de vídeo) e em tudo que eu sei, criei a história. Eu risquei o palito, taquei fogo e saí correndo. Pensei que não ia dar em nada, e está sendo premiado. Quanto ao “Ego Sum!”, foi uma segunda etapa. Eu queria ter um pouco mais de recursos financeiros para fazer coisas legais. Entrei na Lei Rouanet, sem conhecer muito sobre até mesmo pensando que ganharia parte do orçamento. Assim que aprovado tem que ir buscar empresas para patrocínio. Peguei toda a equipe de Caxias que eu conhecia. Mas só agora que o pessoal está vendo a dimensão daquele projeto. Achavam que seria uma propaganda mais longa. Fiz um trabalho que ninguém acreditava e está ganhando prêmios, um atrás do outro. Recebi propostas de fora do país, mas tenho que fazer mais trabalhos para poder ir mais adiante. Não consigo porque não tenho patrocínio e não é fácil custear. Eu gostaria de continuar a fazer mais filmes. Esse reconhecimento foi decorrência do meu conhecimento sobre histórias em quadrinhos, de como desenhar e contar uma história, como mexer com câmeras, enquadramentos, iluminação, duração de cenas, estudo de diálogos. Isso que está fazendo todo o efeito fora do país. Inclusive, recebi proposta da Itália para fazer uma continuação.

:: Ao circular pelas suas redes sociais dá para perceber que sempre acha formas de passar o tempo diante de tantas habilidades. O que anda fazendo para amenizar o tédio da quarentena mediante a pandemia do novo coronavírus?

– Waner Biazus: Nesta época de pandemia, estou passando os dias na minha chácara que fica 10 minutos do centro da cidade. Então corto grama, corto lenha, procuro pinhões, atiro com meu arco-e-flecha, que é um esporte que pratico há mais de 25 anos. A gente tem que ter uma concentração muito grande, é muito bacana. E tenho aqui também uma mesa de desenho, à moda antiga, e trouxe um pacote de folhas de ofício. Dependendo a inspiração, faço meus desenhos, tudo à lápis. Se meu computador pifar, não tem problema, faço tudo no papel e à mão. E às vezes sai até melhor. Não deixo de fazer as coisas que sempre gostei de fazer: rabiscar, fazer perspectivas, criar cenários. E aqui aparecem animais: pássaros, tucanos, cotias. E estou disputando pinhões com um casal de cotias, e geralmente, eles ganham de mim, chego lá e só tem as cascas. Estou isolado mas estou passando esses dias refletindo sobre o que vou fazer daqui para frente, porque tudo vai mudar.

:: Quais são as suas maiores inspirações?

– Waner Biazus: Uma delas seria voltar a fazer a propaganda como fazia, há um tempo: bonita, pensada e estudada. Cair fora disso que estão fazendo agora. Ter mais pessoas envolvidas na área da propaganda com conhecimento, e não o pessoal que chega do nada e vira um mágico. Está cheio de mágicos por aí. Todo mundo tem solução para tudo. Eu gostaria mesmo que a arte tomasse conta como antigamente tomava da propaganda, como com grandes nomes, sendo um deles o Washington Olivetto. Esse cara mexeu com a propaganda nacional porque trabalhava muito com a arte e a emoção. A propaganda é mexer com emoções, é chocar as pessoas. E eu gostaria também de ensinar o que eu sei para as pessoas que tenham interesse. Antigamente eu ensinava muita gente. Eu não dava aula, mas conforme eu ia fazendo eles iam acompanhando e aprendendo.

:: Um livro, um filme e uma música.

– Waner Biazus: Um livro: “Homo Deus” do Yuval Harari. Me marcou muito e conta a história da humanidade.

Filme tenho que citar uns três. O que mais me marcou foi o primeiro filme do “Planeta dos Macacos” com o ator Charlton Heston. Eu me lembro que assisti no cinema e fiquei sem palavras. Outro filme que me marcou muito foi o primeiro “Blade Runner” com o Harrison Ford. E por fim, acho fantástico o “The Good The Bad and The Ugly”, um faroeste dirigido por Sergio Leone. Marcou o conhecido Spaghetti Western, estilo da produção audiovisual italiana. Dos três filmes destaco as trilhas sonoras. “O Planeta dos Macacos” tem a trilha inovadora do Jerry Goldsmith que cria um clima que arrepia, a do “Blade Runner” do Vangelis também é fabulosa, e do “The Good The Bad and The Ugly” é do Ennio Morricone, que também inovou muito nesta parte.

Como sou publicitário sou obrigado a gostar de todo os gêneros de música. O publicitário que não gosta de um estilo não é publicitário. Tem que “gostar” porque lá na frente vai ter que fazer uma propaganda que tenha aquele tipo de música. Gosto muito de Blues, Rock e Jazz, tipo The Beatles, The Rolling Stones, mas não tenho uma música preferida.

:: Por fim, e não menos importante, quem é Waner Biazus para você?

– Waner Biazus: Agora em julho vou fazer 66 anos, mas continuo com aquele espírito do tempo de colégio, que eu desenhava minhas figurinhas com um pouco de volume. Eu continuo um sonhador, acreditando na arte, nas coisas bem feitas e bem estudadas. Esse é o Waner Biazus de hoje. Por isso que eu sinto muito o choque do que está por aí e não tem muito conteúdo. Eu trabalhei cinco anos desenhando letras e conheço a técnica de fontes. Se o computador pifar, posso desenhar letra por letra. Eu vejo o pessoal associando tipologia errada, tudo que vai contra os parâmetros artísticos que aprendi na época. O Waner Biazus é o mesmo de antigamente, que respira arte e estuda as coisas. 

História é o que ele mais tem para contar. Para entrar em contato com Waner Biazus basta acessar o seu site (https://www.wanerbiazus.com.br) e também o encontrar no Facebook (https://www.facebook.com/wanerbiazusdirector) ou no Instagram (@wanerbiazus).

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