Jornal do Povo

Entrevista: Eduardo Matias, o jovem caxiense na luta por direitos e mais igualdade

Nascido no dia 23 de abril de 2001, o jovem Eduardo Ribeiro Matias é líder, artista, LGBT e ativista social. Desde o início da adolescência busca ser uma voz que representa o que acredita e faz frente na luta por direitos e mais igualdade em Caxias do Sul. Sua jornada começou ainda em 2016, quando eleito presidente do Grêmio Estudantil da Escola Melvin Jones. De lá pra cá, não teve medo de mostrar quem é.

Liderou movimentos, organizou atos, discursou e palestrou em espaços públicos, políticos e incontáveis manifestações. Sendo também responsável, pela fundação e planejamento de diversas organizações juvenis em defesa da educação, como a antiga UCES, e a atual UMESC (União Municipal de Estudantes Secundaristas).

Hoje, estudante de teatro e universitário (pela Faculdade da Serra Gaúcha), futuro RP, desempenha seu tempo escrevendo, cantando e atuando, depondo sua dedicação em cativar outras pessoas com sua arte e exemplo de juventude, irreverência, não deixando de lado o pensamento social e o fazer a diferença.

Eduardo nos concedeu uma entrevista e conta um pouco mais sobre suas inspirações, dificuldades e os projetos que tem para o futuro. Confira:

Quem é Eduardo Matias? Como ele se vê?
Eduardo Matias: Sou um comunicador, artístico, cênico, e literário. Carrego uma mensagem político-social, que está nas entrelinhas do meu trabalho. Nasci para me conectar com as pessoas. Tenho prazer na presença que o coletivo me traz. O olho no olho, pele na pele. Sentir o riso e a lágrima. Vejo beleza na humanidade, em estar aberto não somente para contar a minha história, mas para ouvir o que os outros tem a dizer. A minha mensagem só faz sentido quando se conecta, do contrário, não vejo sentido em produzir Arte.

Em fevereiro de 2020, Eduardo Matias liderou a primeira edição do Bloco Arco-íris no carnaval de rua de Caxias do Sul. Fotografia: Dênyan Silvestri, divulgação

Para ser quem é, teve incentivos, inspirações?
Eduardo Matias: Minha avó materna foi fundamental para que eu pudesse me reconhecer como artista e alguém que tem muito a dizer. Ela dizia “O Du é um artista”, e isso me deu muita força para olhar para dentro de mim. Ver algo especial. Eu não sou artista somente quando produzo, é uma condição existencial. Me expresso de todas as maneiras, dançando, cantando, escrevendo e atuando. Não importa a forma como me comunico exatamente, o importante é chegar a quem interessa. Outras influências na minha vida foram a Lady Gaga, pela irreverência, e a Madonna, símbolo de coragem, uma “muralha”. Concluindo, minha vida é inspirada em mulheres audaciosas e fortes, responsáveis por encorajar meu impulso a expressão. Elas me ensinaram a escolher seguir em frente, apesar das dificuldades.

Sobre sua trajetória, do estudante, artista à liderança estudantil secundarista? O que veio primeiro? Como aconteceu?

Eduardo Matias: Não consigo desassociar uma coisa da outra. Sou artista e militante político ao mesmo tempo. Quando faço arte, sou político, e quando faço política estou sendo um pouco artístico. Mas se eu tivesse que dar uma ordem, acredito que eu nasci artista, e não tem outro jeito. Agora a política, foi uma necessidade adquirida a partir do momento em que comecei a ter noção da insana desigualdade social em que a humanidade vive. Além de que a sociedade atual não está preparada para receber as nossas cores, enquanto LGBTs. Ambas as coisas fazem quem eu sou, e são a minha força para levantar todos os dias.

Em 2019, traçou alguns comentários em púlpito durante a exibição de um cinedebate LGBT. Fotografia: Dênyan Silvestri, divulgação

Quais foram as maiores dificuldades que sempre enfrentou, em todos os sentidos?

Eduardo Matias: Fui uma criança muito incompreendida e ridicularizada, mas ao mesmo tempo rebelde e contestador. Já passei por períodos de depressão, em que eu me sentia nojento por conta da minha condição física. Também o fato de que em dias eu acordo sendo eu mesmo, e outros eu mesma. Não conflito com minha existência biológica de homem, mas eu fluo entre as caixinhas do masculino ao feminino. Suponho que eu seja, uma gay levemente afeminada. Dentro da sociedade patriarcal, e da comunidade LGBT, o feminino é escrachado e visto como fraco, superficial, algo indesejado. Porém se não fossem essas contradições da realidade, eu não teria o porquê lutar e insistir na minha arte, estamos ai para apontar e resolver os problemas de uma forma inteligente.

Como figura de destaque no movimento LGBT caxiense, sendo tão jovem, o que pensa que pode ser feito para um maior fortalecimento dessa causa?

Eduardo Matias: Nunca antes foi discutido tanto a questão de gênero e sexualidade nessa cidade. As pessoas querem se libertar a qualquer custo. Acredito que devemos nos unir como comunidade LGBT, para podermos dialogar e apresentar quem somos à sociedade. Quem é visto é lembrado, precisamos ocupar todos os espaços possíveis. Dialogar amplamente com a sociedade e quebrar estereótipos. É um movimento político, e ao mesmo tempo cultural contra a cultura patriarcal que estrutura a sociedade.

Qual é sua opinião sobre as atuais mobilizações estudantis, a forma de atuação é a mesma que antes, ainda existe o antigo engajamento? Como sente isso?

Eduardo Matias: A história não é estática, cada época possui seus meios e necessidades de luta. Tenho muita esperança no movimento estudantil, na Entidade que ajudei a fundar aqui em Caxias do Sul, a UMESC (União Municipal de Estudantes Secundaristas), uma cara nova para o movimento estudantil secundarista, que vai se reinventando. São tempos de incertezas e avanços de projetos neoliberais, que põem os estudantes em efervescência, demostrando a necessidade de se organizar. Sou um entusiasta de organizações e Entidades que lutam pela Educação. Foi dentro desse engajamento estudantil e corajoso que criei senso de cidadania, aprendi a amar e a participar da nossa cidade. Entrei no movimento sozinho, e sai coletivo, esse é meu maior ganho e aprendizado. 

 Sempre engajado, quando tinha a oportunidade transmitia seus ideais em atos políticos.
Fotografia: divulgação

Sendo um jovem militante e também artista, o que busca transmitir para o seu público?

Eduardo Matias: Bravura para que corram atrás de seus ideais, nesse mundo nada está dado, tudo está à deriva de muita luta. E essa luta estando em diferentes formas. Por exemplo, acredito na arte como fonte transformadora da sociedade, e não apenas servindo uma elite econômica. Tudo que escrevemos, ou produzimos artisticamente nos recria novamente. Por isso, ressalto que a arte tem o papel político de se comunicar com as massas e dar o recado. Ouvimos músicas, assistimos filmes, desenhamos e cantamos quando estamos felizes ou tristes, a Arte está na vida das pessoas e não podemos negá-la. Um simples artesanato já tem uma ideia, ou um fim ideológico. O silêncio tem palpite. Pergunto às pessoas, de que forma podemos fazer as nossas ideias saírem do papel e chegar ao público?

Para os jovens que se interessam em fazer a diferença em suas comunidades, o que diria? 

Eduardo Matias: Estudem, dialoguem, organizem-se, criem grêmios estudantis e produzam arte. Mas nunca deixem de se conectar com as pessoas. Para fazer a diferença precisamos ter um senso comunitário: de que somos todos comuns, plurais e que um precisa do outro. Somente dessa maneira poderemos mudar as bases e toda essa engrenagem maluca de consumo e também exploração. Talvez não possamos mudar o mundo todo, mas podemos mudar as coisas que não concordamos a nossa volta. Revoltem-se, é disso que nossa geração precisa, sentimento de revolta: fazer arte e fazer política! 

Eduardo discursando durante campanha estudantil em 2018.
Fotografia: Vinicius Faria, divulgação

Projetos futuros?

Eduardo Matias: Sou um jovem artista iniciante. Procuro espaço e oportunidades, sem falar a chance de aprender mais. Estou produzindo alguns textos curtos, gosto de escrever crônicas e usar o meu humor. Quem sabe no futuro eu serei capaz de escrever um livro? Também sou ator, estou prestes a me formar e apresentar meu monólogo na Tem Gente Teatrando (escola caxiense de artes cênicas). Será algo muito pessoal e confessional, um momento de celebração pois estarei me lançando como ator, dessa vez com DRT (certificado profissional para atores e atrizes). Quando escrevo, não consigo deixar de pensar na voz dos personagens e nas personalidades, parece que tudo evolui para o cênico e visual. Será que daqui pra frente estarei em algum grupo do teatro? Não sei, aguardo as próximas cartas da vida. 

Alguma mensagem final?

Eduardo Matias: Estou carente do abraço, do contato humano. Lives não estão conseguindo suprir essa necessidade. Os artistas estranham as plateias vazias. Mas compreendo que isso é para um bem necessário, a pandemia nos pegou de surpresa e nos fez repensar todos os nossos planos, e principalmente quem somos e fazemos. Passem álcool, lavem as mãos, fiquem em casa o máximo que puderem. Vamos nos permitir sair dessa diferentes do que entramos. Pois se continuarmos os mesmos, a incapacidade de conseguir ver um sentido e significado em estarmos afastados vai se confirmar. Nada melhor do que pegar os pensamentos caóticos e jogar numa folha em branco, ligar o som bem alto e criar uma pista de dança no seu quarto, ou um tipo de auditório no banheiro. Sairemos dessa, reinventados! Agradeço o espaço, um forte e virtual abraço às pessoas que acompanham meu trabalho. 

“Nasci para me conectar com as pessoas”.
Fotografia: Rafael Nazario, divulgação

Arthur

Arthur

Arthur é jornalista, escritor, músico e produtor cultural. Atual Presidente da Academia Caxiense de Letras - RS (2020/2021). Vice-presidente da UBT - Seção Caxias (2019/2020). Colaborador de diversos jornais, revistas e blogs pelo país.



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