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Poesia e Reflexão

Humanos em brasas – Romila Amaral

Romila Amaral

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Fiquei observando um toco de madeira queimar no fogo. O crepitar parecia um grito, como se não quisesse cumprir o destino de se transformar em cinzas. De repente, em um dos cantos da lenha, com muito esforço, uma lágrima angustiada insistiu em sair. Eu senti a dor dela e como uma humana idiota continuei olhando. Muitas vezes algumas pessoas são como um pedaço de madeira, o fogo se torna os problemas que chegam e começam a tomar conta queimando por dentro. Aquele que se encontra dentro de uma situação como esta, mas se mostra alheio sem estender a mão, é o ser que está no lugar do observador, assim como eu quando fiquei fitando aquele corpo lenhoso em chamas.
Os humanos se acham tão superiores, mas somos como um pedaço de lenha. Ao sentir o nosso corpo queimando, gritamos, choramos, clamamos. O fogo pode ser visto como uma aflição, uma tormenta que bate na porta, mas não queremos deixar entrar. Dívidas, desafetos são como um punhal em brasa quando não conseguimos dar a volta e transformar um vendaval em calmaria.
Alguém levou a lenha até a boca do fogão. Ela não chegou lá sozinha. Isso também acontece com nós, pobres mortais. Quando não vamos atrás de algo movidos pelas nossas próprias pernas, somos conduzidos pela ambição, por algum desejo, uma força maior que não conseguimos controlar. Na maioria das vezes atraímos os nossos problemas. Aquele que é correto, mas antes de tudo humano, é como um pedaço de lenha, que sem covardia se mantém na triste cantiga do crepitar.
Não podemos fugir das nossas responsabilidades. Se não for hoje, será amanhã, mas chegaremos até a tão temida boca do fogão para o acerto de contas. Resistimos às queimaduras e a vida nos dá uma nova chance de viver longe do fogo cruzado que nos atormenta.

Texto e Fotografia: Romila Amaral

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