Jornal do Povo

LUGAR DE FALA

“Observamos, ao longo dos séculos, a pilhagem, a redução do espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos, ela foi mal gerida, à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens.” Assim começa o livro ‘Mulheres que Correm com os Lobos’ escrito em 1992 por Clarissa Pinkola Estés, psicanalista junguiana, poeta e escritora norte-americana que, através da análise de contos, histórias, lendas e mitos selecionados, propõe o resgate e a recuperação da essência da alma feminina e da forma psíquica instintiva mais profunda e natural da mulher, muito valorizadas num passado longínquo. Sintomas como medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade, cada vez mais frequentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional, não são problemas recentes. Eles vieram junto com o desenvolvimento de uma cultura que transforma a mulher numa espécie de animal doméstico.

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Nas sociedades primitivas não guerreiras, nas quais a cultura não era centrada na guerra e sim na harmonia e respeito à natureza, a mulher era fortemente exaltada e endeusada por sua energia criadora e capacidade de dar vida a outros seres humanos. Uma evidência disso são os restos de duas grandes cidades, de nomes Mohenjo-Daro e Harapa, encontradas no Vale do rio Indo, na fronteira entre o Paquistão e a Índia, ambas cuidadosamente planejadas, com ruas largas, saneamento, comércio e cultivo da terra para agricultura com avançadas técnicas de irrigação. Nestas ruínas, vários objetos e vestígios arqueológicos achados indicam que os Drávidas (povo de pele morena), considerada a primeira grande civilização indiana e uma das primeiras civilizações do mundo, surgiu nesta região há mais de 5000 anos, era detentor de um vasto conhecimento e cultivava uma filosofia comportamental matriarcal, sensorial, desrepressora e de culto à feminilidade.  A partir do início das invasões à Índia pelos arianos (“nobres”, povo de pele mais clara) por volta do séc III a.C. à procura de terra e animais, com armas de ferro e mais sofisticadas do que as conhecidas pelos pacíficos habitantes do Vale do Indo, os arianos derrotaram facilmente a população dravídica, escravizando-a, dividindo-a em castas e introduzindo o patriarcado, a repressão, a submissão da mulher ao homem, a religiosidade e a antisensorialidade na sua cultura. Do confronto dessas duas culturas, dravídica e ariana, nasceu a civilização hindu (o povo que vive do outro lado do rio Indo), cujas bases socioculturais influenciaram o restante do mundo e se mantém vigentes até hoje na Índia.

Ao longo da história as mulheres foram sendo domesticadas, silenciadas, subordinadas ao poder masculino, e limitadas a ocupar o espaço doméstico, sendo delegadas a elas as funções de procriação, amamentação, educação dos filhos e manutenção do lar, enquanto ao homem ficava reservado o lugar de trabalho, produção, sustento, poder e autoridade.  Na religião, na qual os grandes líderes e referências são homens. Na educação e na Ciência, espaço que sempre tentaram tirar do poder das mulheres e que, ainda hoje, é majoritariamente masculino, inclusive pela disparidade de tempo investido em pesquisa e nos estudos em função da divisão desigual dos afazeres domésticos. Na Filosofia, cujas visões amplamente propagadas são de homens, embora as mulheres sempre tenham tentado ter espaço e voz (vide o que diziam os filósofos sobre as mulheres desde a Antiguidade até recentemente: Xenofonte, Platão, Aristóteles, Russeau, Kant, Nietzsche). Nas propagandas, nocivas, que projetam uma mulher ideal o tempo todo. Na política. Nas profissões de prestígio… e etc.

Atualmente, embora se tenha avançado na busca por equidade, com conquistas sociais, econômicas e jurídicas, o processo é lento e gradual, e a mulher ainda sofre opressão social, tendo em vista que a estrutura já tão bem estabelecida e condicionada persiste. Tal realidade manifesta-se através dos altos índices de violência física, sexual, moral, econômica e psicológica sofrida pela mulher brasileira, além de, é claro, diferenças salariais, ocupações de cargos elevados, entre outros exemplos. Se a mulher for negra, então, os números são mais chocantes. Outra questão relevante é que todos estes milênios de inferiorização, repressão e desqualificação da mulher acaba por acorrenta-la a uma herança histórica, moldando sua existência conforme o contexto atual foi sendo estabelecido.

Sendo assim, pode-se compreender que mulheres e homens vão construindo suas identidades a partir das características específicas da sociedade em que vivam, da época, cultura, raça e classe social a que pertençam. Mas o processo de construção da identidade não é determinado apenas pelos espaços em que eles transitam. Esse processo também é influenciado pelas ações carregadas de sentidos que vão descontruindo e construindo novos lugares por meio da interação social. Novas realidades sempre serão possíveis.

Segundo Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira, em seu livro ‘O que é lugar de fala?’, a linguagem é um mecanismo de manutenção de poder. Daí a importância do lugar de fala. Todo aquele que fala, fala a partir de si, fala a partir da sua própria vivência, da sua própria experiência e suas reflexões. Este é um conceito que surgiu como contraponto ao silenciamento da voz de minorias sociais por grupos privilegiados em espaços de debate público. Ele é utilizado por grupos que historicamente tem menos espaço para falar. Pensar lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia violenta. Pensar lugar de fala é uma postura ética, pois saber o lugar de onde falamos é fundamental para pensarmos as hierarquias, as questões de desigualdade, pobreza, racismo e sexismo.

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A partir dessas reflexões e buscando compreender quais são as barreiras de desenvolvimento para as mulheres, o que as impede de falar em público, de onde vem a insegurança, como vencer medos, crenças limitantes e encontrar coragem, surge a ‘Jornada Lugar de Fala, oratória para mulheres’, proposta pela Apoena Socioambiental, empresa autogestionária de impacto e inovação na área socioambiental da região do Vale dos Sinos, composta por mulheres empreendedoras e cientistas. Uma formação para mulheres que queiram aprimorar sua autoconfiança, resgatar seu poder pessoal e criativo, romper as barreiras da insegurança ao ocuparem lugares de fala em público e sentirem-se mais confiantes e acolhidas. A Jornada inicia no dia 18/5/2020, terá a duração de 11 dias e será no formato on-line, com encontros virtuais, aulas gravadas, atividades propostas e ambiente para trocas.

Se você sentiu vontade de participar, entre em contato com Daiana Schwengber pelo telefone (51) 99926-2307 ou contato@apoenasocioambiental.com, ou ainda, inscreva-se diretamente pelo link este link.

Dieison Barcarolo

Dieison Barcarolo

- Natural do município de Canela/RS.
- Estudante de Filosofia pela UNISINOS
- Colunista Portal Gramado News
- Colunista Brasil Popular
- Apresentador de rádio pela Rádio Estilhaço de Santana do Livramento/RS. - Administrador da página do Facebook "Didi&Philo"
- Web Designer



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