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Educação

#NãoSeCale: Dia de Combate à Violência Sexual Contra a Criança e o Adolescente

Ariel Fedrizzi

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Susana era uma menina alegre, com um sorriso leve e um brilho doce no olhar. Gostava de brincar de boneca – mas em segredo, porque suas amigas da escola achavam que era coisa de criança, e, bem, Susana já era uma mocinha.

Vivia com os pais e com o irmão mais novo, Cadu, além de Pitoco, o salsicha da família. Amava muito todos eles: sua mãe, com seu tom sempre paciente, disposta a ensinar; seu pai, com as piadinhas que Susana dizia serem sem graça, mas que, na verdade, provocavam-na crises de riso quando estava sozinha; Cadu, mesmo nas vezes em que ele espalhava quebra-cabeças pela sala e depois não queria guardar; e Pitoco, quando deitava no colo dela para ninar.

A pequena família era muito feliz e unida. É claro que, às vezes, havia alguma briguinha, uma discussão boba que aparecia, envolvendo, geralmente, os temas da escola. Mas no final, todos sempre acabavam de bem.

Num belo dia, aconteceu à mãe de Susana o que tanto queria: ela recebeu um convite para abandonar os afazeres domésticos e seguir carreira na empresa onde sempre sonhara trabalhar. O salário era bom (o que, Susana sabia, significava mais idas à sorveteria nos fins de semana), mas ela teria que passar longas horas do dia longe de casa.

Depois de muito conversar com o marido, a mãe de Susana resolveu arriscar. Era um sonho antigo, afinal. Ficou combinado que faria um teste na semana seguinte, e a família veria se era possível continuar. Pensando no bem das crianças, a mãe contratou uma conhecida para cuidar dos pequenos enquanto ela e o marido estivessem fora. A Tia. Era uma mulher séria, mas simpática, que parecia ter a paciência necessária para lidar com um casal de irmãos tão animado (e agitado) quanto Susana e o caçula Cadu.

E assim aconteceu. A semana de testes correu bem, com as crianças contando que a Tia parecia legal, e a Tia narrando aos pais as brincadeiras realizadas no dia. A mãe gostou do emprego e resolveu ficar. Tudo caminhava em harmonia…

Ninguém sabe ao certo quando começou. Foi logo que as notas de Susana despencaram na escola? Quando Cadu passou a brigar com os coleguinhas, com os amiguinhos, com os pais? Ou foi quando ele e a mana pararam de falar sobre a Tia?

A cada tanto, o pai e a mãe notavam acontecimentos curiosos, pequenos indícios de que algo estava errado. Só que, claro, poderia ser por qualquer motivo: Susana estava quaaase entrando na puberdade; Cadu vivia momentos de mudança, também. A própria rotina dos pais estava pesada no trabalho, e eles reconheciam que já não tinham tanto tempo assim para os filhos. Mesmo assim, nos fins de semana, nem Cadu, nem Susana andavam muito dispostos a brincar.

Quando perguntada, a Tia disse que não havia notado nada de estranho no comportamento dos dois. Concordou com o pai e a mãe que podia ser por causa do estresse de não tê-los mais por perto com tanta frequência quanto antes, ou porque as crianças estavam de fato caminhando para a pré-adolescência. Só que nenhuma outra colega de Susana experimentava tanta irritação ou insegurança. Nenhum outro coleguinha de Cadu tinha momentos de apatia e momentos de explosão.

Algo não estava certo… mas ninguém falava nada.

Foi a psicóloga da escola em que o casal de irmãos estudava quem conseguiu um punhadinho de informação. Com muito jeito e delicadeza, passou a conversar mais com os dois e observar a forma como agiam em aula. Foi a psicóloga, com a ajuda dos professores, que sabiam que o mal poderia estar mais perto do que todos achavam, quem conseguiu descobrir alguma coisinha que talvez explicasse por que Susana já não tinha o brilho doce no fundo dos olhos.

Foi a psicóloga quem viu o bichinho acuado nas profundezas da infância.

Depois de muito carinho, muita conversa e reafirmação de que não podiam guardar certas coisas para si, as crianças falaram. Contaram sobre as… as “brincadeiras” estranhas da Tia, que, de divertidas, não tinham nada. Contaram sobre as ameaças – aquelas que, muitas vezes, confundiam com bajulação. Contaram sobre o cinismo.

Contaram tudo o que todos haviam tardado a investigar, tudo que explicava a raiva, a frustração, o medo incomuns àquela fase tão bonita da vida. Contaram tanto que deram à psicóloga a certeza de que eram dois pequenos heróis. Quando a Tia foi apanhada pelo mais covarde e silencioso dos crimes, foi uma surpresa para todos. Afinal, ela não tinha histórico algum com crianças! Afinal, ela sempre parecera gostar tanto dos pequenos! Afinal, era de confiança! Afinal, afinal!

E então a psicóloga falou. Explicou aos pais e a todos que a violência sexual contra crianças e adolescentes, muitas vezes, vem de dentro. Explicou que não há uma máscara de bandido desenhada no rosto de quem a pratica, e que o silêncio muitas vezes esconde uma vítima que sufoca.

Explicou que é preciso um tipo de coragem diferente para não se omitir, para contar, para desabafar. E que é preciso ainda mais humanidade para acolher quem desaba sob o peso de ter sido calado – e violentado – por tanto tempo.

Agora, Susana e Cadu recuperaram o brilho nos olhos e o sorriso travesso. Recuperaram a alegria de brincar com Pitoco. Recuperaram os sonhos e (por que não?) a vontade de viver. Nunca mais serão os mesmos, é verdade, já que tiveram sua inocência roubada de forma tão cruel. Mas ao menos sabem que também há pessoas de bem no mundo, pessoas que oferecem alento e amparo e os ajudam na longa estrada da cura e da superação.

#NãoSeCale.

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