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Coluna Dia Um – 21/03/2021: O giro das engrenagens e a proteção

Ariel Fedrizzi

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É irônico o jeito como as coisas trabalham, não é?

Alguns dias atrás, enquanto eu sentia o vento despenteando meus cabelos e ouvia a corrente da bicicleta me levando para novos confins, me vi pensando sobre os riscos e as aventuras de pedalar. Na verdade, ponderei, tudo se resume a tentar atrasar ao máximo o momento de sofrer uma queda ou se envolver em algum acidente.

Sabemos que os riscos são reais e estão aí. Sabemos, também, que muitas vezes sequer depende de nós – apesar de todos os cuidados que possamos tomar, só é possível ir até certo ponto. Feito uma parceria, por exemplo, que exige colaboração e interesse de ambas as partes, a cautela na hora de se aventurar pelas estradas da cidade e da vida também requer um pouco de sorte.

O objetivo, no fim do dia, é garantir que o pior não tenha acontecido… mesmo que não consigamos dar garantias de fato.

Pois bem, pois bem… noite dessas, semana passada, tive estas reflexões colocadas à prova. Na forma de um jovem ciclista empolgado, que se materializou em meu caminho com seus hábeis zigue-zagues no guidão, fui testado e me vi sem tempo de frear minha bicicleta antes de colidir com a dele. Em uma descida de uma das principais ruas do centro – ainda que num momento em que a cidade repousava em salas de estar e telas de Netflix –, atingi a bicicleta do rapaz com força suficiente para que ambos fôssemos ao chão.

Visto que eu vinha de trás, apenas observando os zigue-zagues do jovem e tentando decifrar seus movimentos futuros para evitá-lo, fui pego em posição mais vulnerável. Quando ele, inconsciente de minha presença, virou para o mesmo lado que eu escolhera para ultrapassar, nossas rodas chocaram-se uma com a outra. Numa fração de segundo, senti meu corpo ser projetado para a frente; o capacete absorveu o choque com o asfalto, mas o pouso em cima do ombro e os braços ralados não deixaram de cobrar seu preço.

Me levantei atordoado, talvez um pouco irritado pelo ocorrido. A alguns passos de distância, os olhos arregalados do rapaz e a boca, escancarada em um “o” de surpresa enquanto ele se colocava de pé, me mostraram que eu não era o único.

Trocamos algumas perguntas emergenciais: “Tá legal?” “Se machucou?” “A bicicleta tá intacta?” “Tem certeza que não quebrou nada?” “Em mim? Ou na bike?”

Talvez o sangue escarlate que brilhava em meu antebraço e meu tombo, que fora o mais espetacular, tenham contribuído para a preocupação do outro ciclista. Mas, felizmente, nenhum dos dois sofrera nada mais sério; nenhuma pancada na cabeça (embora o barulho de meu capacete no choque com o asfalto ainda ecoe com certa morbidez); nenhum estrago irreversível para as bicicletas.

Retirando nossos veículos do meio da rua deserta (um morador se aproximara para ver se estávamos bem, mas ninguém mais aparecera naquele breve intervalo), trocamos votos de boa sorte. Feito os ciclistas agora batizados e extremamente sortudos que éramos, que somos, montamos nossos meios de transporte e lazer e nos preparamos para seguir viagem. Pensei com meus botões em sugerir que ele comprasse um capacete, 𝘫𝘶𝘴𝘵 𝘪𝘯 𝘤𝘢𝘴𝘦, mas não o fiz. Ele deve ter pensado em sugerir que eu instalasse uma buzina de caminhão em minha humilde Caloi, mas não o fez.

Pedalei para casa num misto de dor, assombro, incerteza e gratidão. Nem meu ombro – que decididamente levara a pior, e agora me acorda com fisgadas todas as noites, como se dissesse “Ei, amigo! Ei! Não durma! Estou aqui e quero companhia!” –, nem os cortes nos braços e nem a roda – que agora aponta para um lado enquanto o guidão aponta para o outro, bem como aqueles carrinhos de supermercado capengas – macularam a consciência de que o nosso acidente fora brando.

Mesmo com todo o cuidado e todos os equipamentos à disposição, há uma parcela, 𝘢𝘲𝘶𝘦𝘭𝘢 parcela do destino, que não cabe a nós. Podemos ir somente até certo ponto, está lembrado? Dele em diante, é sempre bom contar com um pouco de sorte e um anjo da guarda zeloso em seu dever.

Gratidão ao meu pelo trabalho duro que tem realizado.

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