Jornal do Povo

Poesia e Reflexão – 01/03/2021: Do outro lado do muro

Estava no ônibus, olhei pela janela e vi um muro com uma tatuagem na pele. Em cima da carne feita de tijolos, estava escrito algo que não consegui decifrar. Do outro lado do muro havia flores, uma árvore, plantas, inclusive milho. Fiquei imaginando as duas faces dele e o que cada uma enxerga. O lado tatuado é o que está visível aos olhos de todos os que passam pela rua, certamente já presenciou muitas situações, mas talvez não saiba o que está escrito em sua própria pele. Seria um pedido de socorro? alguma declaração? não sei…

Ao lado tem um outro muro, mas este respira, sua pele está livre de tintas, letras ou desenhos, porém demonstra angústia. Como se estivesse fazendo parte de um cenário no qual não compactua com o que acontece ali, pois nele, tem um cão amarrado com uma corrente tão curta, enfrentando dificuldades para se mover. Este muro não tem duas faces, mas tem uma companhia. Os dois dividem a mesma aflição. O cão quer correr, se livrar daquela corrente que o prende, já o muro, quer ter a dádiva de pelo menos um dia presenciar a alegria do seu companheiro, vê-lo distante, longe do elo que os une, a corrente de ferro.

Qual é a diferença entre o cachorro e o muro? Alguém poderia dizer:

– O cão tem vida, o muro não.

O fato é que eu não vi diferença naquela cena cheia de inquietudes. Como se fosse uma pintura me fazendo refletir… – o que o animal pensa? e o muro o que sente? É ele que abraça o cão, ambos estão tão próximos um do outro. É o muro que estende suas mãos de concreto, enquanto o humano, que é considerado o tutor do animal, não tem a mesma sensibilidade.

E quando o cachorro late, talvez esteja agradecendo a companhia gelada das pedras, que ao mesmo tempo aquecem. Ele não parece ser “maltratado”, mas sim limitado. O muro é uma fronteira e o cão está preso nela. Ele depende da bondade da “corrente”. Quem sabe em algum momento, ela faça “vista grossa” e chame a liberdade. De dia a cena é esta, mas à noite chega, derruba seu véu e o espetáculo termina. O cão muda o ponto de vista, mas não diz o que acontece do outro lado do muro.

Romila Amaral

Romila Amaral

É estudante de Jornalismo da UCS, natural de Caxias do Sul (RS). Apaixonada por poesia e literatura, aos oito anos começou a recitar poemas e não imagina a sua vida longe dos versos. Acredita que o jornalismo e a poesia podem mudar o mundo e a vida das pessoas. Afirma que são a voz daqueles que muitas vezes não podem falar. Os dois se completam. Como declamadora já ganhou alguns prêmios no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.



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