Jornal do Povo

Poesia e Reflexão – 22/02/2021: Quando o indesejado devasta

É difícil compreender que enquanto você está conversando ou dando boas risadas com alguém, células anormais estão sedentas, se dividindo e destruindo os tecidos do corpo dessa pessoa. Invadem órgãos, se espalham como se fosse uma enchente que inunda de dor e sofrimento.

O câncer é aquela visita indesejada que nenhum corpo quer receber, mas ao mesmo tempo, ninguém está livre dele. A chegada é devastadora, como um punhal que ao penetrar na pele vai ferindo. Se esconde atrás de um olhar, pensamento, fala, às vezes viaja por todas as regiões do corpo, um “aventureiro maligno” que, enquanto se diverte, devasta.

É uma enfermidade que afeta tanto a vida do paciente quanto a dos familiares. Todo mundo se envolve, como se fosse uma corrida contra o tempo. Corações carregados de fé, esperançosos na busca de alcançar a cura. Muitos conseguem, outros não. É uma guerra, mas o inimigo está no corpo, sugando as energias. Batalha difícil! Quem sai dela, leva consigo cicatrizes e um sorriso no rosto, quem não volta, descansa, mas deixa um vazio no peito daqueles que ficam.

Quando a doença toma conta, a sensação é de naufrágio. Começamos a nadar, mas parece que o mar vai nos engolindo e nos sentimos pequenos, tão pequenos a ponto de se sentir impotente por não poder fazer nada pela pessoa que tanto amamos. Por mais que se esgotem as forças, não podemos perder a fé. A gente faz o que pode e o que não pode, qualquer coisa que nos faça enxergar uma luz no fim do túnel, não queremos dizer adeus, mas a morte se faz presente, vai se aproximando, e num quarto de hospital acontece a cena da despedida. Quando o guerreiro cansa de lutar, o corpo descansa, a alma se liberta, mas não se entrega. O câncer jamais sai vencedor, ele não lutou de igual pra igual, na maioria das vezes, pega o guerreiro desprevenido, e aqueles que estão ao seu redor fazem a seguinte pergunta: “Por que meu Deus, por quê?

A família, embora sofra e não compreenda, para sempre irá carregar a saudade daquele que já cumpriu sua missão neste plano. Quando o indesejado devasta, é como se o mundo parasse, voltamos no tempo, revivemos os melhores momentos, refletimos, lutamos, cansamos… Mesmo que a morte chegue com seu riso afiado e suas mãos frias, mesmo que tire o nosso sorriso e dê lugar ao pranto, nem mesmo assim vencerá, pois o amor que carregamos transborda, é o elo que nos mantém ligados com aqueles que cruzaram a fronteira.

Romila Amaral

Romila Amaral

É estudante de Jornalismo da UCS, natural de Caxias do Sul (RS). Apaixonada por poesia e literatura, aos oito anos começou a recitar poemas e não imagina a sua vida longe dos versos. Acredita que o jornalismo e a poesia podem mudar o mundo e a vida das pessoas. Afirma que são a voz daqueles que muitas vezes não podem falar. Os dois se completam. Como declamadora já ganhou alguns prêmios no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.



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