Jornal do Povo

Poesia e Reflexão – 26/10/2020: As pessoas não morrem, adormecem

Quando eu era criança, meu irmão mais velho me levava para passear, estávamos sempre juntos. Um dia ele adormeceu e os passeios também.

Na infância e na adolescência, eu passava algumas datas comemorativas e férias na casa da minha avó paterna. Ela fazia os melhores doces e tinha uma risada cheia de vida. Um dia ela adormeceu, os doces e as gargalhadas também.

Eu adorava duas irmãs da minha avó materna, uma delas fazia um pão delicioso, a outra tinha uma paz no olhar e sempre pedia para mim recitar o mesmo poema. As duas adormeceram, as mãos que faziam o pão e o olhar sereno também.

Não lembro que idade eu tinha quando escolhi minha madrinha, sempre foi muito presente na minha vida, uma segunda mãe. Cumpriu o papel de madrinha com maestria. Um dia ela adormeceu e a alma amiga também.

Troquei a palavra morte por adormecer. O fim seria se eu não tivesse aprendido nada com eles, mas os ensinamentos seguem vivos. Todos que nascem plantam uma semente, às vezes nem percebemos, mas colhemos o que o outro plantou e assim vamos evoluindo até começar a semear as nossas próprias sementes.

As pessoas não morrem, adormecem dentro de nós. Quando abrimos a gaveta das lembranças nos encontramos com elas. Revivemos aqueles momentos, depois fechamos a gaveta, voltamos à vida e a única certeza que temos é que um dia também vamos adormecer.

Romila Amaral

Romila Amaral

É estudante de Jornalismo da UCS, natural de Caxias do Sul (RS). Apaixonada por poesia e literatura, aos oito anos começou a recitar poemas e não imagina a sua vida longe dos versos. Acredita que o jornalismo e a poesia podem mudar o mundo e a vida das pessoas. Afirma que são a voz daqueles que muitas vezes não podem falar. Os dois se completam. Como declamadora já ganhou alguns prêmios no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.



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