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Coluna Dia Um

Sobre professores inspiradores

Ariel Fedrizzi

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Eu sempre achava engraçado o som do giz dançando na superfície do quadro.

Mesmo sem saber muito bem o porquê, sentia que havia certo encanto naquilo. O movimento da escrita fazendo surgir palavras que sanavam questionamentos e clareavam lugares escurecidos pelo desconhecer me parecia bonito. Toda vez que assistia hipnotizado àquele ritual, ele me fazia querer escrever também; me fazia querer ser luz.

Quando a professora, à frente da classe, terminou a última palavra com um floreio e se virou para nós, fez a pergunta que sempre fazia após concluir alguma explicação:

– Alguma dúvida, pessoal?

Me preparei para negar com a cabeça e repetir o mantra: “tudo certo, professora”. Mas num assomo, num ímpeto, num átimo, percebi que a resposta que ecoava na minha mente
desta vez era diferente da que normalmente utilizava. Sim, hoje eu tinha dúvidas.

Várias dúvidas!

Ligeiramente incomodado, me remexi na classe, mal ousando respirar. Várias dúvidas? Como assim?! Eu nunca tinha dúvida de nada que ela ensinava!

O que estava acontecendo?

Lentamente, evitando a todo custo olhar para a professora e ter a insegurança traída no fundo dos meus olhos, respirei fundo e me permiti um segundo de calma. Talvez não fosse nada de mais; eu só precisava abrir a caixinha para ver quais eram, afinal, os questionamentos que eu possuía.

Um a um, eles começaram a aparecer:

“Professora, por que o jota da senhora tem essa curvinha engraçada?”
“Professora, como é a sensação de escrever no quadro?”
“Professora, a senhora sempre gostou da matéria que ensina?”

Já mais aliviado pelo teor das dúvidas, me recostei na cadeira e deixei que o fluxo de pensamentos continuasse a jorrar livremente. Serpeou feito um rio, e logo eu já me sentia mais à vontade para continuar desfiando perguntas em silêncio.

“Profe, qual o maior desafio de dar aulas? E qual a parte mais legal?”
“Profe, você sempre soube que queria ensinar? Ou começou de repente, num estalo, numa certeza súbita?”
“Profe, como foi a sua primeira aula? Qual foi a sua inspiração?”

Eu desfrutava de todas as dúvidas como se as perguntasse em voz alta. Por algum motivo, era como se o tempo tivesse parado no meu aguardo.

Eu sabia o que fazer.

Sem hesitar, joguei a mão para o alto, cortando alguma espécie de cortina invisível que pairava sobre nossas cabeças.

E no meio do delicioso véu que acariciava uma criança que acabava de ter uma certeza para a vida, eu, a criança, falei:

– Eu tenho uma dúvida, professora: como é que a senhora faz para conseguir deixar essa matéria tão fácil e tão interessante? É incrível! A senhora é capaz de me mostrar um sonho que eu desconhecia, e me fazer sentir que posso sonhá-lo. Obrigado por isso! Obrigado por ser um exemplo pra mim!

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